Mate que o governo garante
Quem ainda acredita na
recuperação moral da classe política via renovação parcial do
Congresso Nacional, processada mediante eleições de outubro/2006,
terá suas expectativas postas à prova na apreciação e votação de
algumas proposições apresentadas nestes primeiros trinta dias da
nova legislatura. A onda de escândalos, revelando ao país a quantas
anda a corrupção nos altos escalões da República, parecia a muitos o
suficiente para que novos rumos fossem tomados no início deste ano,
ainda que a punibilidade tenha sido extremamente mansa com os
envolvidos em toda aquela sujeira. Entretanto, por mais que
queiramos acreditar no contrário, uma das propostas vincula-se
justamente à proteção de agentes políticos, e também ex-agentes,
envolvidos em corrupção; ou seja, se aprovada a proposta, políticos
estarão imunes, mais do que nunca, à ação da Justiça e, por
conseqüência, mais longe ainda da punição. Por meio de PEC –
Proposta de Emenda Constitucional, já pronta para ser votada na
Câmara dos Deputados, pretende-se dar a prefeitos, secretários de
Estado e deputados, envolvidos em atos de improbidade
administrativa, o direito de serem julgados em foro privilegiado.
Prefeitos, por exemplo, que são atualmente denunciados pelo
Ministério Público e julgados pelo juiz de sua Comarca, passarão a
ser julgados pelo Tribunal de Justiça do Estado. Promotores,
procuradores e juízes, de todo o país, já se mobilizam para
pressionar a Câmara Federal no sentido de rejeitar a proposta. É
importante que a reação não fique restrita aos especialistas da área
jurídica e detentores de cargos no Judiciário, pois foro especial,
além de fortalecer a impunidade reinante, não condiz com o princípio
da igualdade dos cidadãos perante a lei. Se atualmente, muitos
agentes políticos escapam da punição pela lentidão dos processos em
primeira instância, o acúmulo no Tribunal de Justiça prolongará
ainda mais o tempo de seu andamento. Será a sopa no mel para os maus
administradores públicos! Mas, não é só isso!
O grande público pode não
ter percebido, mas essa novidade, inserida na PEC conhecida como
segunda parte da reforma do Judiciário, talvez seja a cama para os
poucos que não conseguirem se safar de denúncias por má
administração a partir da mudança que se pretende na Lei 8.666/93, a
Lei das Licitações. De acordo com critério atual, empresas
participantes de licitações devem, em primeiro lugar, apresentar
provas de idoneidade e de capacitação, ficando a questão do preço
para a última etapa do processo. Pelo Projeto de lei, enviado pelo
Executivo à Câmara dos Deputados, o menor preço será a primeira
preocupação e somente a vencedora estará obrigada a apresentar a
documentação. E questionamentos dos concorrentes não afetarão em
nada o processo, ficando o administrador livre para contratar pelo
menor preço. E menor preço nem sempre é mais econômico. Nem é
preciso ser especialista para saber disso.
Apanhado por vigilantes de
plantão na sociedade, mesmo com essa proteção legal, o mau
administrador terá então certeza da impunidade na espera de sua vez
no foro especial.
E quanto ao debate em
torno de ações criminosas violentas, levantado depois do
trucidamento do menino João Hélio, no Rio, o deputado chefe do
coronelismo baiano apresentou proposta da criação de fundo, cuja
função seria indenizar vítimas da violência. Custa-se acreditar no
fato de deputado, patriarca de destacada família e sob o peso de
longa vida pública, apresentar proposta que, diante da grave
situação a que chegamos, chega a ser imoral. Seria uma espécie de
senha: "Pode matar que o governo garante"!
A sociedade sabe que vidas
perdidas para o crime, perdidas estão, e nenhuma indenização as
compensará. Quer, sim, a prevenção contra a criminalidade, o combate
sem trégua aos criminosos e à violência originária de seus atos.
E diz não à "venda" de
vítimas ao crime com a intermediação do Estado!