Mediocridade diplomada
Acentua-se a
polêmica em torno da existência de certas escolas de nível superior,
notadamente na área do Direito, que estariam não a formar
profissionais, mas distribuir diplomas mediante a freqüência de
pseudo-aulas, em salas improvisadas, durante fins de semana. Felizmente,
para o exercício da profissão de advogado, não basta o diploma, pois
há necessidade da carteira, que a OAB só concede aos aprovados em seu
exame. Se não fosse assim, a sociedade estaria à mercê de picaretas,
ou maus profissionais, além dos muitos em atividade que, diga-se de
passagem, não é ocorrência exclusiva da área do Direito.
Mas, o diploma de
advogado tem sido o instrumento mais perseguido em razão da estúpida
avaliação da competência em função de curso superior, não importa
qual seja. Ambiciosos por promoção pessoal, seja no serviço público
ou no setor privado, mas tolhidos por não possuírem graduação
superior, milhares de estudantes bissextos pagam caro, em pecúnia e em
sacrifícios das horas de lazer, ou de atividades indispensáveis em seu
meio social. Obtêm o tão reclamado diploma, gaiatamente chamado
"canudo" e que, por ironia, disso não passa no caso dos
cursos tipo "panela de pressão", porque não soma
competência ao estágio pré-graduação do indivíduo e em nada
melhora a execução do trabalho, embora o recém-graduado se sinta nas
nuvens sob a nova condição. Com a acomodação desses graduados de
última hora, no mercado de trabalho, fecham-se oportunidades de levar
aprimoramento, aonde é necessário, aos verdadeiramente capacitados.
Não somente trabalhadores sem formação superior, porém capacitados,
são prejudicados, pois, grande número de profissionais formados em
condições normais desperdiça talento em atividades incompatíveis com
sua vocação.
Verdadeiras minas de
dinheiro para seus proprietários e grotescas fraudes contra a
educação, há muito claudicante, tais cursos só existem porque a
demagogia decidiu que o ensino deve descer ao nível intelectual do
aluno, e, assim democratizar o acesso ao diploma que, já se disse, não
passa de um canudo vazio de saber. Nunca deveriam ter recebido
autorização para funcionamento e, por isso, seu fechamento não deve
constranger a quem cabe tomar a iniciativa. Que se mantenham escolas de
alto nível de ensino, na área universitária, e obstáculos não haja
no caminho dos intelectualmente capacitados que desejem cursá-las. E
que o ensino nos graus precedentes seja suficiente para transformar o
educando em cidadão consciente, útil a si próprio e à coletividade,
plenamente capaz de buscar sua realização de vida por meio do
trabalho, de acordo com seu nível intelectual. Mais vale o gari que
cuida bem da limpeza pública e se realiza nessa função, do que o
doutor mal formado, frustrado e, muitas vezes, incapaz de transmitir seu
pensamento em alguns parágrafos escritos.
Já vi portadores de
diploma não conseguir redigir um simples requerimento, assim como
presenciei candidatos a emprego, nas mesmas condições, devolver, em
branco, o teste de redação. Em compensação, recentemente, tive o
prazer de atender a uma pessoa, cuja escolaridade não vai além do
antigo quarto ano primário. Ela trazia o rascunho de correspondência
dirigida a uma autoridade estadual, pedindo-me que a corrigisse e
enviasse por correio eletrônico. Surpreendentemente, afora dois ou
três deslizes ortográficos, muito comuns, a carta estava corretíssima
e transmitia claramente a idéia da remetente. E não incorria no erro
da subserviência, tão freqüente nas relações de certas pessoas com
autoridades.
Como referência a
néscios, portadores de títulos, não era à toa que os antigos
chamavam "doutor" a certo vaso noturno, hoje em desuso nos
quartos!