PONTO DE VISTA DO BATISTA

Mentira na casa da verdade

Há muito queria abordar o assunto, mas algo sempre interferia. Era a memória a falhar na hora de escolher o tema, ou outra prioridade a requerer atenção devido à oportunidade, fator muito importante quando se quer o público mais motivado, pois o mesmo assunto em ocasiões diversas causam impactos de intensidades diferentes. O certo é que o tempo passou, e, só recentemente ocorreu-me de novo a lembrança de abordar a questão, porque o fato continua a acontecer e a me intrigar.

A igreja estava lotada para a missa dominical e, logo ao início, o celebrante informou que a celebração a se iniciar naquele momento seria de corpo presente de "Fulano de Tal", falecido à tarde do dia anterior. Chamou-me atenção aquela informação e procurei ver à frente, mais próximo do altar, o caixão. Não o vi. Pensei que, talvez o cortejo funerário ainda não tivesse chegado e isso viesse a acontecer logo a seguir. Entretanto, a missa teve início e transcorreu sem que nada mais acontecesse. Voltei para casa intrigado com a informação, e, concluí que podia ter sido engano do padre. Entretanto, duas semanas depois, o fato aconteceu novamente. Questionei-o junto a algumas pessoas, e estas explicaram que "corpo presente" seria porque ainda não fora feito o sepultamento.

Explicação mais furada nem podia, pois estar presente, comprovadamente, em qualquer lugar requer o testemunho de terceiros. E se terceiros (os presentes à missa) não viram o ataúde que continha o corpo (mesmo falsamente), não houve testemunho, donde se conclui não ter ocorrido a presença anunciada. O corpo podia estar presente em outro lugar diante de outras pessoas, mas não do público dentro da igreja, onde se celebrava a missa! Pode-se até fazer paralelo com o princípio jurídico de que não se pode considerar homicídio como fato consumado, enquanto não comprovada pelas autoridades a existência do corpo, objeto daquele crime.

Os próprios dicionários dão ao verbete "presente" a seguinte definição: 1. Que assiste pessoalmente (não é o caso do defunto, que deixou de ser agente de qualquer ação e, portanto, não assiste a nada) 2. Diz-se de pessoa ou coisa que está à vista. Como pessoa, não é o caso, pois o que se vai sepultar é apenas coisa (com o devido respeito pelo que foi); e essa coisa não está ou não estava à vista das testemunhas como preconiza o "pai dos burros".

De lá para cá o fato se repetiu muitas vezes e continua a acontecer até hoje. Se o defunto está presente ou não, para ele nada mais importa, pois seu tempo como agente e testemunha dos fatos se expirou, restando-lhe apenas a passividade diante das forças que o reduzirão à primariedade dos elementos. Nada mais lhe pesa e dele nada mais cobrarão, mesmo como "corpo insepulto", que deveria ser o termo no caso de estar ausente da missa. Quanto aos vivos presentes a ela, dita de corpo presente, porém sem a dita presença, se enquadram na condição de "falsas testemunhas", involuntárias, é verdade, mas nem por isso isentas de responsabilidade perante a Lei, se lhes cobrada a verdade.

Circunstância insólita e comprometedora do fiel, que da missa participa, em princípio comprometido com a verdade, que a mesma encerra!

Teme-se, em seguida, mantido o "vicio", por sua extensão a atividades entre vivos - os mais "vivos" – nas quais a presença já não é levada a sério, quando não em jogo interesses pessoais. Se defuntos já votaram e agora, ausentes, são tidos como presentes, os mais "vivos" poderão reivindicar também "presença", estando a léguas de distância.

nbatista@uai.com.br

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