Mercado da morte
Já não basta a
morte súbita e barata com a carne trespassada pelo metal saído de um
AR-15, de uma metralhadora, de um Taurus, ou qualquer outro nome que
tenha a máquina projetada para matar, sob o controle de cérebros
socialmente deficientes. É muito pouco! Há que haver mais meios de
eliminar e ampliar também a lista de motivos. Mata-se por um tênis no
pé, por uns míseros trocados que o trabalhador leva no bolso, por
precaução contra a denúncia da testemunha, ou porque por trás da
arma alguém não gosta de quem está à frente. De quebra, há bala
também para quem não tem nada a ver com esse mercado da morte. Para
isso foi inventada a bala perdida! Mas, perdida mesmo está a sociedade
que não sabe a quem apelar contra a insanidade de que padece, pois no
seio de setores voltados para a garantia da segurança e da vida também
se constata comprometimento com a violência.
Em destaque na
mídia, toma-se conhecimento de mortes, mais de vinte, supostamente
causadas por medicamento usado como transparência em exames
radiográficos. É para assustar, pois não há muito tempo, doentes do
câncer e familiares viveram a tortura do falso medicamento, como se
não bastasse a angústia da doença que condena milhares à morte
prematura. Muito barulho, na época, e pouco resultado ao longo do
tempo, que se encarrega de apagar ou amenizar, da consciência pública,
o sentimento de indignação contra os autores do crime. Não há como
negar que houve crime. Falsificar e por à venda medicamento tido como
esperança de cura assemelha-se ao ato de envenenar. E veneno não foi
outra coisa que fabricaram desta vez, segundo os primeiros resultados
das investigações. Do proprietário, a primeira alegação é que
teria sido acidente; equipamento que não teria sido lavado
convenientemente. Deve ter sido também acidente a falsa assinatura na
liberação do lote fatídico! O farmacêutico que "assinou"
já não mais é funcionário da empresa há mais de um ano. Não
havendo culpados, em virtude de as investigações ainda estarem em
curso, pesadas suspeitas recaem sobre os principais responsáveis pela
operação do laboratório. Na hipótese de que se confirme a culpa, uma
pergunta se adianta: qual seria o motivo? Não existe crime sem um. E o
alvo? Com a diferença que eram múltiplos, o remédio-veneno não tinha
alvo pré-definido, assim como bala perdida. Sem motivo aparente e sem
alvo pré-definido, configura-se nova modalidade de crime a representar
grave ameaça à integridade física de usuários de medicamentos. Ao
mesmo tempo, medicamento usado na área oftalmológica causou cegueira
em pacientes que se submeteram à cirurgia de catarata. Isto é o
cúmulo da insegurança a que chegamos neste país! É caso de polícia,
diríamos antes.
Só que, agora, não
se sabe quem na polícia está do lado da lei, portanto, em defesa da
sociedade. Não se passa uma semana sem que venham à luz casos de
policiais envolvidos com o mundo do crime, sobretudo no que se refere ao
tráfico de drogas. Qual a causa de tudo isso? Para a violência nas
camadas mais baixas da população, teóricos de botequim elegeram a
pobreza e o desemprego. Piada de mau gosto que agride a dignidade dos
milhões, que nada têm e nem por isso estão a furtar, assaltar e
matar! E quanto à violência disfarçada sob o manto da proteção,
nesses laboratórios da morte e nas forças de segurança? E quanto à
violência contra a economia, praticada por colarinhos brancos?
Tudo começou no dia
em que pai e mãe abdicaram da autoridade sobre o filho; a escola
retirou-a do professor dentro da classe; e setores da Igreja deixaram em
segundo plano o aspecto espiritual, que é de sua competência, para se
preocupar com o material. Para ricos ou pobres, o que falta é um pouco
de moral!