Ao final da temporada de
chuvas, ainda sob o efeito da tragédia do réveillon, em Angra
dos Reis, tempestades atingiram a Região Metropolitana do Rio de
Janeiro, de forma intensa e concentrada, registrando-se então, em
algumas horas, precipitação que seria para mais de trinta dias,
nesta época do ano. Numa cidade despreparada para chuvas de média
intensidade, assim como as demais grandes cidades brasileiras, o
impacto sobre a população foi além da conta, mesmo para aqueles
abrigados com segurança, dotados de conforto, pois as consequências
danosas afetaram toda a infraestrutura urbana. Repetiram-se cenas e
sofrimentos comuns a essas ocasiões, também comuns em todo o país
nos períodos chuvosos, onde a imprevidência de uns e a
irresponsabilidade de outros permitem edificações em áreas de risco.
Confirma-se a contribuição
das fortes chuvas à ocorrência da tragédia, mas debitá-la
inteiramente ao fenômeno natural é fora de propósito e fuga à
responsabilidade que indivíduos e governos deveriam ter na
convivência com a natureza. Muito há que aprender até que o homem
entenda que a natureza não se amolda à sua vontade. Se o hóspede
deve aceitar as regras do hotel, enquanto nele está, a mesma atitude
a natureza espera do ser humano. A humanidade é hóspede da Terra e
não seu dono!
A completar o quadro
dantesco, transmitido a todo o país pela televisão, registrou-se no
Morro do Bumba, Niterói, mesma região, o deslizamento que representa
a imprudência por parte de indivíduos, na ocupação do solo e
edificação em áreas de risco, bem como omissão oficial no que toca
aos mesmos aspectos, somando-se ainda a falta de política
habitacional. Considerada a composição do solo, resultante do
acúmulo de entulho e detritos de toda natureza, a área nunca deveria
nunca deveria ter sido ocupada com moradias. Mas a visão eleitoreira
fingiu que não viu e, quando viu, consentiu, oportunisticamente,
acomodando a situação de acordo com as conveniências. É assim que se
procede em todo o país, até que o trágico acontece e, aí, é hora de
outras correntes políticas dele se valerem para a realização de suas
metas.
Por trás de tudo isso,
dois fatores, no passado, favoreceram o inchaço das cidades, que
hoje metem medo ao se anunciarem tempestades, ou se tornam
insuportáveis quando em circulação toda sua frota de veículos. De
condição essencialmente agrícola, o país sempre teve mais atenção
dos governos sobre as cidades onde, embora aí não residisse a
maioria da população, eram realizadas benfeitorias para melhor
comodidade dos cidadãos. Ao meio rural cabia a tarefa de produzir
alimentos para todos, mas, ao que parece, sua vontade de também ter
o conforto das cidades não era levada em conta pelo mundo oficial.
Mesmo a educação formal estava distante. Sob a visão dos citadinos,
o homem (mulher também) rural era o capiau, caipira, jeca, matuto;
ou, para amenizar a ofensa, empregava-se o eufemismo "do interior",
que também significava "atrasado". Diante disso, os mais rebeldes
iniciaram marcha para as cidades; uns poucos privilegiados para se
estabelecer, e o restante simplesmente para aventurar entre janotas
e a malandragem urbana. Foram morar no subúrbio (ainda não adotada a
esdrúxula "periferia") e só aí perceberam que a distância social
continuava e até aumentava, mas voltar para a roça ninguém admitia,
porque, um dia, a sorte mudaria. Mais algum tempo e veio a
industrialização. Aí foi a debandada geral das pequenas comunidades
para as metrópoles e, carro chefe destas, São Paulo foi a que,
insanamente, concentrou o maior número de altas chaminés, como se
não houvesse Brasil além das suas divisas.
No interior fecharam-se
até padarias, depois de desaparecidas as oficinas de conserto,
fabrico de calçados sob medida, e desativadas as alfaiatarias. O
pequeno patrão do interior se converteu em porteiro de escola,
jardineiro, taxista e outras funções, em sua adaptação à megalópole,
na busca da satisfação de suas necessidades mais prementes.
Mudaram-se os hábitos para grande parte dos emigrantes do interior.
Só não mudou o descaso dos governos de costas para as periferias,
morros e favelas, onde foram morar os "do interior", seguidos dos
seus descendentes.