PONTO DE VISTA DO BATISTA

Miçanga para aposentado

Desde os tempos, em que cachorro era amarrado com linguiça, ouve-se dizer que, enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé. Sabendo-se então que todos os dias sai um bobo de casa, montaria então não falta aos espertos que sempre têm um golpe a aplicar.

Na última semana, valendo-se de estratagema bem conhecido, espertalhão tomou algum dinheiro de pessoas desprendidas ligadas a entidade de prestígio dentro da comunidade. Apresentou-se como intermediário de grande e conhecida empresa que, segundo ele, estaria a doar material de construção a entidades do gênero. E seria ele o transportador. Mas, havia um problema: seu caminhão teria de ser abastecido e ele estaria sem dinheiro. Se o pessoal lhe adiantasse o dinheiro do combustível, o material seria imediatamente colocado no local indicado. A ingenuidade, a vontade de realizar os desejos do grupo, entusiasmo e outros fatores contribuíram para o atendimento à proposta do estranho.

Tal golpe só não é mais velho que Adão e Eva, com ligeiras variações em sua aplicação, mas o grupo caiu como patinho e só se descobriu lesado, mais tarde, quando não recebeu o material. Empresa nenhuma distribui benesses a torto e direito, sem que se escarafunchem objetivos e atividades da entidade, possível beneficiária, e se defina a aplicação do material a ser doado. Motorista de caminhão a fazer contatos, intermediação e acertos de entrega de material doado, nem pensar! E quando a esmola é demais até o santo desconfia!

Convém, entretanto, lembrar que também no campo político golpes parecidos são aplicados, abrindo-se caminho para que o golpista usufrua, além das benesses do poder, das oportunidades de mais lesar o povo. O anedotário nacional é rico em causos políticos, cujo foco é a esperteza do candidato na compra do voto. No tempo em que calçado era coisa de citadinos, havia políticos que distribuíam botinas entre o eleitorado do meio rural. Mas, não entregava o par de uma vez. Antes da eleição, o eleitor recebia um pé; o segundo pé, só depois dela. Era o tempo do voto vendido no varejo!

Hoje se faz por atacado, depois de detectadas as necessidades mais prementes da coletividade. Artimanha bem conhecida na região é a de certo político que, sabedor da necessidade e de reivindicações pró-pavimentação de estradas de acesso, providenciava, durante campanhas eleitorais, para que máquinas fossem posicionadas à margem delas, simulando assim junto à população interessada o breve início das obras. O pilantra se elegeu várias vezes graças a isso! Em todas as campanhas eleitorais, apesar de enganado e machucado em ocasiões anteriores, o eleitorado ouve promessas e mais promessas, só não enganosas aos que querem ser enganados. Ainda assim, elegem os indivíduos várias vezes sucessivas.

Em nível nacional, não existindo isca melhor que o salário mínimo, na conquista de votos, candidatos à presidência da República, no pleito de 3 de outubro próximo, anunciam novo salário mínimo para o início de seus governos, chegando um a proclamar o valor de dois mil e quinhentos reais. Ainda que calcadas em estudos, são meras pretensões que, anunciadas como metas certeiras de governos apenas sonhados, resvalam para o delírio irresponsável. Eleito, empossado e verificada a impossibilidade de se cumprir a promessa, o detentor do cargo lançará a culpa em fatores adversos. Mais uma vez, o eleitor se descobrirá enganado, prometerá se corrigir e não mais confiar em promessas de políticos em campanha. Assim como o político, também ele não cumprirá a promessa. Os aposentados surgem como novo setor detentor de alto potencial para a venda de votos no atacado; por isso a grande discussão, no Congresso, há meses, pelo reajuste das aposentadorias acima do piso e pela extinção do fator previdenciário. Sabia-se que a derrubada do fator não seria aceita pelo governo, mas foi aprovada para agradar aos trouxas.

E agora, discute-se na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei PL-7628/2010, que obriga as operadoras de telefonia fixa a prestar serviço gratuito, limitado a duzentos minutos mensais por residência, aos aposentados, idade igual ou superior a sessenta e cinco anos, na faixa de um a três salários mínimos. Deixando de lado a discussão em torno de quem pagará a conta, uma vez que nada sai de graça, pergunta-se ao aposentado se está interessado nessa miçanga ou penduricalho; se isso vai resolver seus problemas ou atenuar a apertura financeira. Aposentado não quer telefonar. Ele quer é aposentadoria justa, para que possa viver o restante dos seus dias em tranquilidade junto à família. E se ele continua na ativa, quer retorno à contribuição que recolhe para a Previdência como qualquer outro trabalhador. Talvez o deputado, autor dessa inconveniência, não saiba que aposentado, ainda trabalhador, paga à Previdência até duas vezes, pois tem o desconto em folha e sofre achatamento de sua aposentadoria até cair no piso, de onde não mais se levanta, mesmo contribuindo. Grande legião de outros aposentados está doente, às vezes de mal adquirido no trabalho, e o que recebem do INSS não dá para pagar medicamentos.

Que o "caridoso" deputado faça outro proveito com os duzentos minutos de telefone!

nbatista@uai.com.br

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