Mídia massacra quando quer
e lhe convém
Nem bem desceram a
murmúrios as vozes levantadas contra o bispo que suspendeu padre
incontinenti no verbo, novo berreiro se ouve contra outro bispo
católico. E tudo por falta de análise mais profunda de questões em
foco, separando-se as de natureza leiga e as de natureza religiosa.
No caso do padre/deputado
federal, a suspensão imposta pelo bispo é de natureza interna, por
questões disciplinares. Mesmo assim causou furor cá fora, chegando a
Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados a deixar de
lado verdadeiros casos de violação dos direitos humanos, para
defender o colega falastrão, talvez pensando que a imunidade
parlamentar o alcançasse na sacristia.
Já o aborto realizado em
menina de nove anos, engravidada por ato de estupro, além de mais
grave, por decidir sobre vida ou morte da pequena vítima de estupro,
envolve a sociedade como um todo e a coloca em atrito com a doutrina
da Igreja. A medicina, amparada por lei (não se discute, se boa ou
má, mas é lei) realizou o aborto, livrando-a, possivelmente, do
risco de morte, antes ou durante o parto. A Igreja, por sua vez,
seguindo seus rígidos cânones no que toca ao aborto, excomunga quem
o pratica, patrocina ou acoberta e foi o que aconteceu em
Pernambuco. Sendo separados, Estado e Igreja, cada qual cumpriu sua
parte de acordo respectivas leis.
Não há por que levantar-se
contra o ato do bispo, sabendo-se que ele não deve obediência ao
Estado em questões de Direito canônico. Teria sentido no período
imperial, quando era realidade a simbiose entre Estado e Igreja. A
insurgência da mídia se deve a oportunismo aberto com a fala
intempestiva do presidente da República sobre o assunto, mas não tem
nenhum sentido contra a punição eclesiástica, que consiste na
exclusão daquelas pessoas na participação dos sacramentos. Mas,
reclamar contra a excomunhão é hipocrisia, pois grande parte dos
católicos está fora deles por vontade própria!
Esta é a grande realidade,
como gosta de vociferar apresentador de televisão, muito agressivo e
grosseiro contra a Igreja e o bispo que aplicou a punição. Não têm
sentido as baboseiras presidenciais, resultantes de sua natureza
inculta, e muito menos têm as produzidas por narrador e comentarista
de futebol, transformado em apresentador de "reality show" policial.
A excomunhão soa pesado aos ouvidos, mas não tira pedaço e nem
expulsa ninguém da Igreja, que simplesmente aconselha e orienta, mas
não impede, como não impediu, o aborto. Se foi atingido o fim
pretendido pela sociedade, não se entende o porquê da implicância. E
há quem opine sobre possível interpelação do bispo na Justiça;
fundamentado em que, não se sabe.
Padres não invadiram o
hospital, para impedir o trabalho da equipe médica, como também não
mataram ou sequestraram médicos, para exigir em troca a não
realização do aborto; também não sequestraram e esconderam a
garotinha, para que ela não caísse nas mãos dos médicos; ninguém viu
padres a obstruir vias públicas com barricadas e queima de pneus em
defesa da posição contrária da Igreja ao aborto. Tampouco padres
foram vistos a ocupar o Ministério da Saúde, para forçar o ministro
na tomada de decisão contrária àquela intervenção cirúrgica.
Autoridades políticas
afirmam que o Estado brasileiro é laico, livre para legislar e
administrar, mas se esquecem que, dentro do mesmo princípio também a
Igreja é livre para aplicar suas leis e, no caso, a excomunhão
atinge tão somente católicos plenos praticantes. Advertem que o
Estado não está ligado à Igreja, mas querem que esta o acompanhe,
como ficou patente nesse caso. Em nenhum momento, a Igreja ou seus
representantes afrontaram as leis brasileiras. Quanto à palavra
esclarecedora do presidente da CNBB, somente nota isolada no canto
dos jornais, nada em comparação com o massacre na telas da TV.
E, para encerrar, na
democracia a liberdade de opinião do cidadão se estende às
instituições, que têm o direito de exercer suas prerrogativas desde
que não em choque frontal com a legalidade.