A semana que
passou trouxe ao ser humano a lembrança de que ele não é tão somente
o demônio da guerra, do terrorismo, dos atentados, da violência
movida pela ambição desmesurada, da agressividade inconsequente, do
desrespeito ao semelhante no que diz respeito aos seus direitos
básicos ou o diabinho de todos os vícios e defeitos.
Por meio da
televisão, da internet, do rádio e outros meios de comunicação boa
parte da humanidade esteve voltada para o Chile, para acompanhar o
resgate de trinta e três trabalhadores presos, a quase setecentos
metros abaixo da superfície, por desabamento que obstruiu galeria de
acesso à saída da mina de cobre.
Só a hipótese de
passar alguns instantes, completamente isolado do restante da
humanidade, é angustiante e pode levar alguns indivíduos a
distúrbios psicoemocionais. Os mineiros de Copiapó, no Chile,
passaram sessenta e nove dias no interior da Terra, dezessete dos
quais sob completo isolamento; sem que o mundo soubesse que estavam
vivos e eles próprios sem saber que a possibilidade de estarem podia
estar em consideração. Dezessete dias sob confinamento compulsório,
alimentação escassa, podendo-se dizer o mesmo quanto à água, calor
excessivo e tremenda pressão psicológica exercida pela condição
anômala devem reduzir ao mínimo a resistência de qualquer pessoa.
Entretanto, pelo que se depreende do aparente estado físico e
psicológico de cada sobrevivente, eles souberam vencer a primeira
fase, mantendo o espírito de equipe cimentado com forte
solidariedade e, sobretudo, com o sentimento de religiosidade. Não
fosse por isso, dificilmente o mundo teria visto resgate em ambiente
tão alegre, todos envolvidos na celebração da vida, principal meta
dos trinta e três mineiros durante os sessenta e nove dias de
confinamento.
Em outras
tragédias, especialmente terremotos, sabe-se de sobreviventes de
soterramentos, muito além do tempo considerado razoável sem
alimentos e sem água, além da imobilidade. São casos isolados, quase
sempre a envolver orientais, cuja cultura contempla a
espiritualidade de forma mais abrangente a influir no quotidiano de
cada um. Isso facilita às pessoas, em condições extremas de
sofrimento, a superação daquelas condições. Já no caso do Chile, não
se trata do confinamento individual, mas de grupo suficientemente
grande para conter indivíduos de perfis psicológicos diferenciados
que, normalmente, divergiriam no comportamento, quebrando a
solidariedade exigida nesses casos em prol da segurança e
sobrevivência de todos. Conclui-se que os trinta e três mineiros
formam grupo bastante homogêneo quanto ao perfil psicológico; foram
muito bem treinados como equipe; ou, por meio do trabalho,
desenvolveram espírito corporativo suficientemente capaz de fazer
cada indivíduo agir instintivamente em harmonia com os demais, na
busca da sobrevivência. Devido às características do trabalho,
diferentes de quaisquer outros, o trabalhador de mina tem que pensar
e agir solidariamente, em grupo, considerando as extremas condições
em comum e a convivência com o perigo, a todo o momento e em
qualquer ponto da mina.
A partir do
restabelecimento da comunicação com o mundo externo, o otimismo do
grupo ganhou suporte com toda a nação chilena e o mundo a torcer por
final feliz, enquanto profissionais de diversas áreas do
conhecimento humano se mobilizavam para encontrar a melhor maneira
de assistir ao grupo com mais conforto, em paralelo com esforços
para retirá-lo das profundezas, são e salvo, no menor prazo
possível. Começou, então, a corrida para o resgate dos mineiros, a
princípio previsto para as proximidades do próximo Natal,
posteriormente antecipado, gradativamente, até se fixar em 12 de
outubro. Teve-se o cuidado de buscar o melhor em tecnologia,
recaindo a escolha nos cientistas e técnicos da NASA (agência
espacial norte-americana) que, pela experiência e conhecimentos
acumulados em pesquisas espaciais, desenharam a cápsula de resgate.
Também foi com base em conhecimentos da NASA, experiente no trato
com astronautas confinados por longo tempo, a assistência
psicológica, bem como a alimentação desidratada, mais apropriada
para a ocasião.
Se o episódio do
soterramento tivesse acontecido há vinte anos, talvez o resgate não
tivesse alcançado o mesmo sucesso. E aqui cabe observação com
relação aos primeiros anos da corrida espacial, quando críticas
contundentes eram dirigidas aos programas, tanto dos Estados Unidos
quanto da União Soviética, que destinavam verbas vultosas às
pesquisas e viagens espaciais. Hoje, são tantas as conquistas
derivadas daquelas pesquisas, sobretudo na área da medicina e na da
comunicação à distância, que é difícil enumerá-las, incluindo-se o
prosaico tênis, que usa palmilha desenvolvida para a bota que
primeiro pisou a lua. O resgate dos trinta e três mineiros, no
Chile, foi vitória do ser humano consciente do que representa sua
espécie no esquema da Criação, embora tenha que muito lutar para não
sucumbir à tentação dos valores materiais.