PONTO DE VISTA DO BATISTA

Mineiros não estão sozinhos

Investimento da ordem da ordem de três bilhões de reais, que deve gerar três mil e quinhentos empregos, Minas acaba de perder para o estado de Pernambuco, lá nos confins do nordeste. É a notícia frustrante, comentada com indignação por políticos, entre eles o governador, ex-governadores e deputados, revoltados com o que chamam de traição aos interesses mineiros e manipulação política em favor do estado natal do presidente da República. Segundo declarações de uns e de outros, a tramoia se concretizou justamente no lusco-fusco entre o governo que se encerra e o que se inicia, por meio de parceria travessa, por baixo dos panos, entre seus dois titulares.

É investimento considerável que, à luz dos exclusivos interesses mineiros e orgulho regionalista, não se admite deixar de vê-lo concretizado, dando mais empregos em Minas, além de destacar o estado entre os mais desenvolvidos. Seriam mais veículos com selo mineiro a circular nas ruas e rodovias de todo o país, mais impostos nos cofres do Estado, mais desenvolvimento entre estas montanhas.

Contudo, deixando de lado picuinhas de natureza política, manipulações de qualquer natureza e o fato de o ainda presidente ser pernambucano de nascimento - talvez considerado relevante na decisão tomada - necessária se torna profunda reflexão em torno do assunto. É para que se diluam sentimentos hegemônicos ainda existentes e não sejam alimentados, daqui para frente, entre as unidades federativas brasileiras ou entre as regiões em que se agrupam. Depois de quinhentos anos, ditos de civilização tupiniquim, tais sentimentos egoístas só podem causar mais desequilíbrios sob a bandeira verde-amarelo, infelizmente lembrada pela massa somente por ocasião dos grandes feitos futebolísticos. Ainda que o território nacional fosse restrito às regiões Sudeste e do Sul, mais ou menos equilibradas, economicamente, a presunção de uns sobre outros já seria fator desagregador, incompatível com o sentimento de união nacional. Considere-se, então, a busca do desenvolvimento unilateral de qualquer unidade das regiões mais ao sul e a qualquer preço, em relação a todo o restante do território brasileiro, especialmente a região nordestina! A diferença econômica é brutal e não se pode agravá-la ainda mais, sem os riscos – quem sabe? – de até convulsão social.

Todo o país paga, e o Nordeste brasileiro ainda mais, pela política do desenvolvimento concentrado em São Paulo, implementada ao longo de todo o passado por sucessivos governos. Fábricas eram direcionadas para São Paulo, bancos criados em outros estados (especialmente em Minas) foram para São Paulo, melhoramentos de toda ordem eram destinados a São Paulo. Com isso, boa parte da mão de obra também foi para São Paulo, cabendo aos nordestinos, por sua condição social, a pior parte do trabalho na construção do império paulista/paulistano sobre todo o Brasil. Criou-se o mito (dito orgulhosamente por paulistas) de que o Brasil era comboio composto de vagões vazios puxados pela possante locomotiva paulista/paulistana. No passado, não além de cinquenta ou sessenta anos, podiam-se ver no mercado produtos cuja procedência paulista – mais paulistana – era denunciada por detalhe presunçoso. A etiqueta ostentava como endereço somente a rua, o nº e o telefone, ainda de quatro dígitos. Para seus produtores, fora de São Paulo não havia salvação! O mundo não existia fora de São Paulo! Nada se produzia ou tinha valor fora de São Paulo. E, não há muito tempo, certo ministro de Cultura (felizmente, não paulista) teria dito que fora do Rio e de São Paulo ainda havia um pouquinho de cultura, exemplificando o pensamento, em certos círculos intelectuais, com relação a São Paulo, isoladamente, e ao Brasil como um todo. Por meio da televisão, concentrada em São Paulo, tenta-se impor ao restante do território usos e costumes paulistas/paulistanos, a começar da fala, embora a fala considerada padrão brasileira esteja concentrada a centenas de quilômetros da Praça da Sé paulistana.

Essa mesma política concentradora se repete nas capitais em relação aos respectivos territórios estaduais, assim como nos distritos sede (cidades) em relação aos demais distritos no mesmo município. Nos estados, o maior exemplo da concentração está nos serviços de saúde, que obrigam todo o interior à prática da "ambulancioterapia" em direção à respectiva capital. E, no interior de cada unidade federativa, há municípios cujos distritos sede se mostram um primor, em detrimento dos demais totalmente abandonados, sem serviços básicos, sem saneamento, interligados por caminhos de cabrito. Os esforços dos agentes políticos se concentram no distrito sede, tratando o restante do território municipal como seu apêndice quando, na verdade, cada distrito em que se divide o município tem sua individualidade, que deve ser respeitada, mesmo porque os mesmos impostos, pagos pelo cidadão do distrito sede, são pagos pelo que reside na "roça", como gostam de dizer os ditos urbanos.

Verifica-se, hoje, que a concentração industrial em São Paulo agravou problemas sociais, servindo isso como alerta para que Minas Gerais não repita o erro, esquecendo-se que o Brasil é muito mais.

nbatista@uai.com.br

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