É investimento
considerável que, à luz dos exclusivos interesses mineiros e orgulho
regionalista, não se admite deixar de vê-lo concretizado, dando mais
empregos em Minas, além de destacar o estado entre os mais
desenvolvidos. Seriam mais veículos com selo mineiro a circular nas
ruas e rodovias de todo o país, mais impostos nos cofres do Estado,
mais desenvolvimento entre estas montanhas.
Contudo,
deixando de lado picuinhas de natureza política, manipulações de
qualquer natureza e o fato de o ainda presidente ser pernambucano de
nascimento - talvez considerado relevante na decisão tomada -
necessária se torna profunda reflexão em torno do assunto. É para
que se diluam sentimentos hegemônicos ainda existentes e não sejam
alimentados, daqui para frente, entre as unidades federativas
brasileiras ou entre as regiões em que se agrupam. Depois de
quinhentos anos, ditos de civilização tupiniquim, tais sentimentos
egoístas só podem causar mais desequilíbrios sob a bandeira
verde-amarelo, infelizmente lembrada pela massa somente por ocasião
dos grandes feitos futebolísticos. Ainda que o território nacional
fosse restrito às regiões Sudeste e do Sul, mais ou menos
equilibradas, economicamente, a presunção de uns sobre outros já
seria fator desagregador, incompatível com o sentimento de união
nacional. Considere-se, então, a busca do desenvolvimento unilateral
de qualquer unidade das regiões mais ao sul e a qualquer preço, em
relação a todo o restante do território brasileiro, especialmente a
região nordestina! A diferença econômica é brutal e não se pode
agravá-la ainda mais, sem os riscos – quem sabe? – de até convulsão
social.
Todo o país
paga, e o Nordeste brasileiro ainda mais, pela política do
desenvolvimento concentrado em São Paulo, implementada ao longo de
todo o passado por sucessivos governos. Fábricas eram direcionadas
para São Paulo, bancos criados em outros estados (especialmente em
Minas) foram para São Paulo, melhoramentos de toda ordem eram
destinados a São Paulo. Com isso, boa parte da mão de obra também
foi para São Paulo, cabendo aos nordestinos, por sua condição
social, a pior parte do trabalho na construção do império
paulista/paulistano sobre todo o Brasil. Criou-se o mito (dito
orgulhosamente por paulistas) de que o Brasil era comboio composto
de vagões vazios puxados pela possante locomotiva
paulista/paulistana. No passado, não além de cinquenta ou sessenta
anos, podiam-se ver no mercado produtos cuja procedência paulista –
mais paulistana – era denunciada por detalhe presunçoso. A etiqueta
ostentava como endereço somente a rua, o nº e o telefone, ainda de
quatro dígitos. Para seus produtores, fora de São Paulo não havia
salvação! O mundo não existia fora de São Paulo! Nada se produzia ou
tinha valor fora de São Paulo. E, não há muito tempo, certo ministro
de Cultura (felizmente, não paulista) teria dito que fora do Rio e
de São Paulo ainda havia um pouquinho de cultura, exemplificando o
pensamento, em certos círculos intelectuais, com relação a São
Paulo, isoladamente, e ao Brasil como um todo. Por meio da
televisão, concentrada em São Paulo, tenta-se impor ao restante do
território usos e costumes paulistas/paulistanos, a começar da fala,
embora a fala considerada padrão brasileira esteja concentrada a
centenas de quilômetros da Praça da Sé paulistana.
Essa mesma
política concentradora se repete nas capitais em relação aos
respectivos territórios estaduais, assim como nos distritos sede
(cidades) em relação aos demais distritos no mesmo município. Nos
estados, o maior exemplo da concentração está nos serviços de saúde,
que obrigam todo o interior à prática da "ambulancioterapia" em
direção à respectiva capital. E, no interior de cada unidade
federativa, há municípios cujos distritos sede se mostram um primor,
em detrimento dos demais totalmente abandonados, sem serviços
básicos, sem saneamento, interligados por caminhos de cabrito. Os
esforços dos agentes políticos se concentram no distrito sede,
tratando o restante do território municipal como seu apêndice
quando, na verdade, cada distrito em que se divide o município tem
sua individualidade, que deve ser respeitada, mesmo porque os mesmos
impostos, pagos pelo cidadão do distrito sede, são pagos pelo que
reside na "roça", como gostam de dizer os ditos urbanos.
Verifica-se,
hoje, que a concentração industrial em São Paulo agravou problemas
sociais, servindo isso como alerta para que Minas Gerais não repita
o erro, esquecendo-se que o Brasil é muito mais.