Ministério da crueldade
Sob os holofotes da mídia, no
Dia Internacional do Idoso, 1º de outubro, o presidente da República
sancionou o Estatuto do Idoso e, ao se dirigir ao país disse: "A
partir deste Dia Internacional do Idoso de 2003, envelhecer nesse país
é mais do que sobreviver, é mais do que resistir, é mais do que ficar
olhando a porta à espera da visita que não vem. A partir de hoje a
dignidade do idoso passa a ser um compromisso civilizatório do povo
brasileiro". Mais adiante, acrescentou: "O
Estatuto do Idoso tornou-se uma causa unânime entre as mais diversas
correntes políticas do país e passará a proteger os direitos dos 20
milhões de cidadãos da terceira idade no Brasil. Seus 119 artigos
formam um guarda-chuva de garantias legais que a sociedade devia aos
seus idosos. A partir de agora, eles terão uma ampla proteção
jurídica para usufruir direitos da civilização sem depender de
favores, sem amargurar humilhações e sem pedir para existir.
Simplesmente viver como deve ser a vida em uma sociedade civilizada: com
muita dignidade".
Belas palavras que encheriam
de esperança os destinatários do documento, em país sério governado
com justiça e exemplo no cumprimento das leis! Pouco mais de trinta
dias se passaram e à véspera do Dia do Aposentado, do próprio governo
veio a brutalidade contra os que se situam debaixo do guarda-chuva
evocado pelo presidente. Mas, no país que tem o INSS, uma patifaria a
mais ou a menos pouca diferença faz! Tão pouca que o ministro da área
se julgava desobrigado de pedir desculpas, depois de voltar atrás ante
a reação de toda a nação, representada pelo Ministério Público. Se
o fez foi porque o próprio presidente exigiu. O fato de o bloqueio dos
pagamentos ter sido revogado não invalida a denúncia, porque deixar
nonagenários, um só que fosse e num único dia, foi uma estupidez só
admitida na cabeça de insensível, para não usar expressão mais
forte. E esta não é a primeira agressão aos direitos de segurados da
Previdência, nem será a última, infelizmente, pois o que ainda
prevalece é a incompetência associada a injustiças de toda ordem
contra contribuintes, aposentados e pensionistas. A corrupção existe e
deve ser combatida com medidas preventivas e punição rigorosa, mas sem
atingir direitos de inocentes. E não é isso que se vê também contra
a sonegação e autores identificados, outro dos grandes males que
atingem o INSS. Entre os grandes sonegadores figuram empresas estatais,
prefeituras e até governos estaduais, sem que a Previdência faça algo
no sentido de receber.
Merecedores do maior respeito,
se não por terem sido contribuintes da instituição, mas, sobretudo
por serem cidadãos e cidadãs que integraram a força de trabalho deste
país, esses nonagenários e centenários pagam um preço a mais por
terem vencido injustiças e ainda sobreviverem. Parece até vingança
por ousarem viver além da média tida como normal. A ordem do bloqueio,
sob a alegação de que há fraude sob a capa dos direitos, atestou
incompetência, pois muitos meios há de fiscalizar, sem punir os
anciãos como se fossem fraudadores ou todos mortos estivessem. Foi
discriminação temperada com humilhação e crueldade, razões
suficientes para se enquadrar o agente no artigo 96 do Estatuto dos
Idosos, que prevê pena de reclusão de seis meses a um ano e multa para
quem discrimina, desdenha e humilha pessoa idosa, por qualquer motivo. E
o bloqueio confirma que acima dos oitenta o segurado já entra na lista
dos mortos da Previdência, suspeita levantada depois de vários casos
em que "beneficiários" vão receber e são informados de que
o pagamento foi suspenso por motivo de morte.
Até quando a Previdência
Social vai abusar da nossa paciência e da fragilidade de seus
"beneficiários"?