Minas Novas é uma pequena cidade do Vale do
Jequitinhonha, distante 543 km de Belo Horizonte e 216 km de Diamantina.
Tem o orgulho de possuir o primeiro "arranha-céu" de Minas,
um casarão de 4 pavimentos construído em pau-a-pique. Mas não é só
nisso que Minas Novas se destaca. Diferentemente de outras cidades e
localidades, que mantêm a tradição da Festa do Rosário, Minas
Novas celebra a sua no mês de junho, mais precisamente nos dias 23, 24
e 25, em coincidência com a data da festa de São João. Além do
reinado, cujo cortejo é uma atração à parte, a festa em Minas Novas
apresenta duas características que a distinguem das outras: a
busca da imagem no rio Fanado, que banha a cidade, e o traslado do
cofre, no qual se depositam as contribuições anuais dos irmãos e
irmãs do Rosário. A primeira solenidade dos três dias finais da festa
que, na verdade, têm início dia 13 (dia de Santo Antônio) com a
lavagem da igreja e prossegue no dia 15 com o início da novena, é o
traslado da imagem de Nossa Senhora do Rosário. Atrás dos reis do
Rosário toda a comunidade se dirige ao Rio Fanado. A comitiva da festa,
acompanhado dos grupos folclóricos ligados às tradições da festa,
atravessa o rio em busca da imagem que se encontra do outro lado numa
pedra. A imagem vem nos braços da comitiva e é entregue ao pároco,
que a aguarda do lado de cá. Este profere uma prédica ao público e
transfere a imagem ao povo que, daí em diante, a conduzirá à sua
igreja.Praticamente todos os participantes fazem questão de
carregá-la, nem que seja por alguns segundos. O antigo e pesado cofre,
em poder do tesoureiro da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos
Homens Pretos de Minas Novas, é trasladado para igreja no último dia
da festa da mesma forma: carregado pelo povo, na cabeça. Na igreja, o
cofre é aberto para se conferir o depósito e receber a contribuição
dos irmãos. No dia 24 (Dia do Reinado), após a missa solene cantada em
latim, rei e rainha do Rosário procedem farta distribuição de doces e
quitandas ao público. Primeiramente, duas mesas improvisadas com cerca
de 5 a 10 metros de comprimento são postas com doces de diversos tipos,
uma na frente da casa do rei e outra na casa da rainha. Vários
pratinhos de cerâmica (do artesanato local), guarnecidos por
colherinhas de pau (idem), mais outro tanto de vasos da mesma cerâmica
com cerca de 10 a 15 quilos de doce, cada um, aguardam o momento da
"corrida ao doce". À entrada da comitiva na casa é dado o
sinal e, os mais espertos ultrapassam a corda de isolamento e pegam o
que podem. Num piscar de olhos, todo o material desaparece da mesa. É o
único momento em que se vê atropelo. Depois disso inicia-se a
distribuição dos doces ao público. Não há filas e também não há
confusão ou briga. Muitos braços se erguem ao alto para receber um
potinho com doces, mas a mão que o alcança é respeitada. Ninguém
avança sobre quem o apanha. Todos recebem sua porção de doce e muitos
voltam para receber mais. Só na casa da rainha da festa cerca de 3 mil
quilos de doces foram feitos para distribuir A polícia nem é
vista nas ruas. Não há necessidade. Não há brigas nem bêbados a
perturbar o andamento da festa. Também não há o comércio ambulante
que fareja festas. As ruas se mantêm limpas e ninguém vê o serviço
de limpeza pública. Meia hora depois da distribuição de doces,
passamos nos locais e tudo estava limpo, como se nada tivesse
acontecido. Como muitas outras cidades do Jequitinhonha, Minas Novas é
uma cidade pobre economicamente, porém com muito a ensinar a
comunidades mais privilegiadas, como Ouro Preto, por exemplo. Como os
provedores da festa em Minas Minas Novas ressaltam em folheto
explicativo sobre as tradições, foi em Ouro Preto que surgiu o reinado
do Rosário pela iniciativa do negro forro Chico Rei. Entretanto, no
município de Ouro Preto quase nada mais há sobre as antigas
tradições. Perdeu-se quase tudo e o restante está sendo enterrado
agora por obra e graça de alguns padres avessos à cultura.
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Construído em pau-a-pique, em 1821, este sobradão se
destaca entre o casario de um só pavimento da cidade
A comunidade se reúne à margem
direita do Rio Fanado, à espera da imagem que vem do outro lado
nos braços
do povo e acompanhada por grupos folclóricos a imagem de Nossa Senhora do
Rosário é conduzida à sua igreja, onde acontecem então as
solenidades
maiores
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O cortejo do reinado é
acompanhado pelo povo e por grupos folclóricos |
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Crianças, jovens e idosos em
roupas multicoloridas representam uma comitiva real nos moldes do
período colonial brasileiro Clique
para ver fotos da festa de 2003
2008 |
O luxo se mistura ao simples.
Repare na figura de uma senhora negra ao lado dos reis. Está
vestida de escrava, descalça, e traz à cabeça um jarro de
cerâmica. Ele está cheio de água. Ao fim do cortejo, na porta
da igreja, ela desce o jarro da cabeça e serve água aos reis e
seu séquito. O vasilhame usado é um cuité |
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