A modernidade, que a tudo
alcança com passos largos e cada vez mais rápidos, tem como meta,
nas mentes dos que a buscam e implantam, a facilitação dos meios em
que transcorre a vida, desde o nascimento até à sepultura.
Entretanto, nem sempre o objetivo se cumpre, embora quem tenha o
controle do meio se considere o suprassumo no assunto, com
autoridade para fazer o que faz. Distorções decorrentes do uso e ou
operação falhos atingem o público, independentemente de sua vontade,
provocando então repulsa entre os considerados beneficiários.
O desenvolvimento dos
meios eletrônicos como difusores do som, em muito, contribui para a
democratização da difusão e popularização daqueles meios, mas o seu
controle consciente está longe de satisfazer ao princípio da
igualdade em qualidade para a maioria do público ouvinte. Mal
instalada, na maioria das vezes diante do público impaciente, e mal
operada por leigos que se creem profissionais, a parafernália
eletrônica produz o que há de mais irritante em som, com o agravante
de o atingido nem sempre estar consciente disso, podendo a carga de
irritação nele acumulada resultar em súbita agressividade. Aí pode
estar a origem de boa parte da violência em escala ascendente. O
pior vem com os chamados aparelhos automotivos, estupidamente
permitidos pelo CTB, CONTRAN, DENATRAN, DETRANs e "outrostrans" de
pouca ou nenhuma utilidade pró bem estar do cidadão.
Não se entende a
instalação dessas trenheiras em veículos, a não ser para a
perturbação do sossego público, principalmente porque operam com
abusos, som excessivamente alto com prevalência dos graves, a
qualquer hora do dia e da noite. E "jecas do asfalto", os únicos, se
deleitam a custa do prejuízo à saúde de suas vítimas, a começar da
percepção auditiva reduzida a cada orgia "decibélica"!
Não bastassem as ruas,
dominadas pelas tralhas dos ditos "jecas", também nas igrejas, onde
deveriam prevalecer recolhimento e tranquilidade, necessários à
introspecção, o som excessivo se manifesta.
Cabe aqui observação
interessante em relação às igrejas antigas, edificadas ainda no
período colonial. Todas elas têm excelente acústica e isso não é
casual, pois construtores de igrejas sabiam o que faziam, em
consonância com o determinado pela autoridade eclesiástica. Em
paralelo com o FIAT (não o veículo) bíblico, que corresponde ao big
bang científico, na criação do Universo, a palavra deve chegar a
todos no templo, razão pela qual se dava atenção especial à
acústica. A altura da nave, o teto abobadado, a disposição dos
altares, os ornamentos, tudo concorre para a melhor acústica
possível em cada caso. Essa qualidade das centenárias igrejas pode
ser testada por pequeno grupo de pessoas em conversa em seu
interior. Qualquer sussurro emitido por uma pode ser ouvido pelas
demais do grupo.
Para a música, cada igreja
dispõe do coro, de onde vozes e sons instrumentais se propagam
uniformemente sem qualquer artificialismo. Entretanto, sob a onda da
modernidade, abandonou-se o coro aos morcegos, ao mesmo tempo em que
música medíocre, qualidade abaixo da crítica, tomava o lugar da
verdadeira música religiosa. Ao invés de, no coro, os grupos
musicais se postam onde deveriam circular os fiéis e ali cumprem sua
função com "ajuda" de sonorização desequilibrada, volume excessivo,
a agredir os ouvidos de quem esperava então ouvir música suave, sem
insinuações para saracotear em momento impróprio. O que seria
momento de enlevo espiritual torna-se suplício!
Quando o novo deixa
atender as mesmas necessidades com melhor aproveitamento e em
condições mais cômodas a todos, melhor que se retardem os passos da
modernidade.