PONTO DE VISTA DO
BATISTA
A morte do carnaval
Quando estas páginas
chegarem ao público, o carnaval já será cinzas, mas estas impressões
escrevo-as na sexta-feira, vésperas do tríduo momesco, atualmente
chamada sexta-feira de carnaval. Quanta diferença do carnaval que
conheci, do qual participei e ao qual dei minha modesta colaboração!
Pura caretice, dirão alguns dos mais jovens, mas estão perdoados
porque não conheceram o carnaval arte, morto antes que eles viessem ao
mundo, assim como não tiveram contato com muita coisa boa que vai
desaparecendo no torvelinho das transformações manipuladas por
interesses ocultos. Estimulou-me a redigir estas linhas um jovem
estudante, que nada tem de piegas, mas questiona a mediocridade reinante
com uma pergunta-sugestão em relação ao carnaval. E ela nos dá uma
reviravolta na usina pensante: "por que Igreja com o seu poder de
persuasão não dá um basta nessa coisa chamada carnaval?"
Mal pensa ele que
isso já fez parte da política educativa da Igreja e foi abandonado
justamente quando se principiou a decadência cultural neste país.
Hoje, que a festa virou um festival de insanidades, a Igreja se cala.
Embora chamado festa da carne, era um conjunto de brincadeiras em que
entravam arte, ironia, crítica, troça e muita criatividade popular,
sem qualquer participação de governos. Mesmo não contendo maiores
excessos, a não ser nos grandes centros, a Igreja ameaçava os foliões
com os mais terríveis castigos na eternidade. Naquela época a família
ia em grupo para a Rua São José, Ouro Preto, ver o desfile dos blocos
organizados ou improvisados ao som de marchinhas e sambas ao vivo.
Encerrava-se o carnaval de rua com a apoteose encarnada no Zé Pereira
"Os Lacaios", cujo ribombar dos bumbos faria estilhaçar as
vidraças daquela rua, se as janelas permanecessem fechadas. Encerradas
as brincadeiras de rua, pais e mães acompanhavam os filhos para os
bailes nos vários clubes, onde nada de mais grave acontecia. O
lança-perfume, como o nome indica, era para perfumar o ambiente,
refrescar os corpos suados e, de vez em quando alguém nos por em
nocaute com uma esguichada nos olhos. Pouco era usado para um porre.
Voltava-se para casa sem qualquer atropelo, a qualquer hora da noite ou
madrugada. Em Cachoeira do Campo, pais, filhos e filhas brincavam lado a
lado nos dois cordões devidamente organizados, incluindo-se músicas
exaustivamente ensaiadas por boas orquestras. Os cordões Banda de
Cima/Progresso e Banda de Baixo/Cruzeiro do Sul, encontravam-se na
ladeira (Rua Pe. Afonso de Lemos), para depois se concentrarem na Praça
Felipe dos Santos, sem qualquer atrito, embora a rivalidade fosse
ferrenha. Os carros alegóricos eram construídos em segredo para causar
ansiedade na agremiação adversária e não se quebrar o impacto da
surpresa. Nada de dinheiro público nas iniciativas que primavam pelo
bom gosto.
Como exemplo da
criatividade então reinante, guardo curiosa lembrança de um carnaval
na Rua São José. As últimas pessoas participantes da folia de rua na
terça-feira já se dirigiam para os bailes, que varariam a madrugada,
quando se ouviu o toque de surdo em pancadas cadenciadas como se a
marcar passos lentos. O som foi se aproximando e então apontou lá na
curva da rua uma espécie de procissão. Todos os participantes vestiam
longas túnicas claras e capuzes de formato cônico a cobrir os rostos.
Portavam velas acesas e o silêncio era quebrado apenas pelas batidas
cadenciadas. Ao fim da longa procissão, um caixão era carregado e nele
a inscrição: CARNAVAL DE 1964. Hoje, sabemos que naquele caixão não
estava só o grande carnaval, que acabava de se realizar, pois a partir
do ano seguinte o povo começou a perder o comando da folia. Rei Momo I
e Único foi destronado e a festa popular se precipitou na curva da
decadência. Não cheguei a saber de quem foi a iniciativa ou quem eram
seus componentes, mas o original bloco foi uma premonição. Os jovens
foliões de hoje não sabem o que lhes fizeram!