Mundo paralelo I
Na ficção literária já se
construiu mundo paralelo no qual tudo seria o inverso deste. Muito
mais que reflexo no espelho, onde direito e esquerdo se invertem,
naquele hipotético mundo todos os valores também se inverteriam. Lá,
virtude seria coisa do submundo, e crime o apanágio dos indivíduos
afinados com a "lei".
Mais ou menos como naquele
mundo avesso, cidadão de bem se sente neste país, levado à breca
pela corrupção desenfreada nos meios oficiais, fustigado pelo crime
organizado, ou não, e tão à vontade que, aos que não rezam por sua
cartilha, outro recurso não resta senão a "autoprisão" em que se
transformam residências. A insegurança se torna o normal na vida do
cidadão contribuinte, trabalhador, empresário, estudante, porque
falta ao estado capacidade e, sobretudo, moral para assumir seu
papel impositivo contra as forças da degeneração, infiltradas em
todo o arcabouço da nação, causando desânimo e desesperança à
sociedade, embora números indiquem melhorias quanto ao aspecto
macroeconômico.
Condenados pela Justiça e
recolhidos aos presídios, onde apenas teoricamente estão alijados da
sociedade, criminosos exercem seu poder - construído à sombra da
corrupção generalizada e da condescendência legal - extorquindo,
ceifando vidas e levando desespero ao cidadão produtivo e livre de
culpa. E tudo se reflete na vida da sociedade que interage com essa
anomalia, aos poucos tornada "normal" no processamento da inversão
de valores. Bandido ganha espaço na mídia e de todos os lados
defesas se lhe oferecem, reivindicando direitos que, na pratica do
crime ele não reconhece em sua vítima; vítima que, diga-se de
passagem, se perpetua nessa condição, desamparada pelo estado legal
e esquecida pelos que defendem os direitos humanos dos criminosos.
Até na denominação do criminoso com relação ao tipo de crime
praticado notam-se cuidados exagerados, cheios de melindres, muitas
vezes faltantes no trato com o cidadão comum, na corrida pelo
cumprimento e reconhecimento dos seus deveres e direitos. Mesmo com
a confissão do culpado e comprovação de testemunhas, aquele é
apontado como suspeito, como se ainda houvesse dúvidas quanto ao
fato. E se aceita a verdade gritante, ainda assim o criminoso não é
ladrão, assassino ou homicida, estuprador, traficante, pois agora
todos esses delinqüentes são "autores". Estão no mesmo grupo do
produtor intelectual, do descobridor, do fundador. No âmbito do
direito, onde se fala língua própria, incompreensível para os não
iniciados e o mais comum dos mortais, "autor" se encaixa
perfeitamente, mas cá fora soa como disfarce fajuto, eufemismo besta
e hipócrita ou, porque não dizer, covarde, da parte de uma sociedade
que se agacha diante do crime.
A exemplo da vítima, cujo
anonimato na imprensa é compreensível por razões de segurança,
pretende-se estender esse direito também aos delinqüentes. Muitas
vezes mascarados diante das vítimas, assim podem continuar diante da
sociedade, à qual se nega o direito de conhecer quem age contra sua
estrutura. E, por incrível que pareça, há unidade local da Polícia
Militar, que já adota essa prática, ao repassar resenha das
ocorrências à imprensa, omitindo nomes dos delinqüentes.
Ainda bem que - pelo menos
não se sabe - nenhuma entidade defensora dos "direitos" dos
criminosos exigiu a retirada da galeria dos "procurados" da frente
do Fórum de Ouro Preto. Da promiscuidade com o mundo paralelo do
crime, o que vem não mais é surpresa!