PONTO DE VISTA DO BATISTA
O mundo dá muitas voltas
Na comparação entre a cidade
e o campo há cinqüenta anos, abordamos, de relance, no artigo da
semana passada, a diferença que havia na indumentária usada. Nas
cidades ou vilas mais desenvolvidas, identificava-se, de longe, quem
vinha do interior ou da roça mesmo. Não havia como errar. De um modo
geral, os homens vestiam calça/paletó de brim riscado, e, as mulheres,
vestidos de chita muito mal acabados. Homens de melhores posses, ainda
não ricos, trajavam brim cáqui, e, ao se casarem, encomendavam ao
alfaiate o melhor terno de casimira (dizia-se gasimira) azul marinho,
que se tornava a roupa de todas as festas, até o dia em que ele batia
com o rabo na cerca e ia pra cidade-dos-pés-juntos. E o terno ia
apodrecer com ele na sepultura! Mas, se a roupa não denotasse a
procedência, o andar esquisito do matuto condenava, porque o coitado,
acostumado com os pés soltos no barro ou na poeira, não sabia como
contê-los dentro das botinas rangedeiras ou dos sapatos, quase sempre
apertados. Ah! E havia o chapéu. O chapéu de palha era como se fosse o
carimbo do campo na cabeça do roceiro. Poucos da roça tinham o
Ramenzzoni, famoso chapéu de feltro.
Lembrei-me desses pormenores
da indumentária de antanho ao reparar umas calças estranhas muito a
gosto dos jovens. Elas morrem no meio das canelas, tais quais as que
vestiam os jovens da roça naquela época. E nós, que morávamos em uma
roça melhorada, chamávamos aquela roupa de calças
"pega-frango", pois os garotos vestiam calças curtas, um
pouco acima dos joelhos, assim como as bermudas de hoje. Calças no meio
das canelas eram consideradas fora dos padrões e, calças compridas, o
adolescente só vestia a partir dos quinze anos, juntamente com a
primeira cueca. Antes disso, "as coisas" ficavam soltas
debaixo das calças curtas! Vejo que as calças "pega-frango"
viraram moda chique, com nome também chique: calças Capri. E o nome
Capri até que lembra caipira, rótulo dado pelos "urbanóides"
a indivíduo do meio rural. É interessante como os conceitos mudam com
o correr dos anos, confirmando a expressão típica, "o mundo dá
muitas voltas", para dizer que o hoje censurável, amanhã será
elogiável ou vice-versa. Ainda com referência a vestuário, porém,
específico do setor esportivo, reparei há poucos dias que os calções
dos jogadores de futebol se alongam quase aos joelhos. Não sei há
quanto tempo eles se alongaram coxas abaixo, pois, completamente avesso
a coisas do futebol (que deveria ter sido aportuguesado com
"i", mais lógico, livrando-nos do "futééébol"
pronunciado pelos paulistas), mantenho–me ignorante quanto a tudo que
lhe diz respeito, com exceção da corrupção própria do setor. A
constatação transportou-me para uns cinqüenta anos atrás, quando o
Colégio D. Bosco/Cachoeira do Campo estava no auge. O regime de
internato e a oportunidade de treinamento diário proporcionavam a
formação de times de futebol de excelente performance. Mas, ao
contrário do usual cá fora, os alunos usavam uns calções compridos
quase aos joelhos. O pior é que o puritanismo não ficava restrito aos
internos, pois, os padres impunham, aos times que compareciam para
disputar com alunos, o uso dos compridos calções da casa. Se não
aceitassem, não havia jogo. E houve ocasiões em que isso aconteceu. A
rebeldia dos jogadores de alguns times batia de frente com a vontade e
determinação dos padres, que não toleravam a exibição de coxas,
embora feias e cabeludas.
É isso aí. Antigas calças
caipiras, hoje, são Capri, e, o puritanismo interno de um colégio é
regra geral nos campos de futebol!