Música nas escolas
Dois meses após a
promulgação da lei de tolerância zero ao álcool, em relação a
condutor de veículo automotor no exercício da atividade, verifica-se
que algo mudou, para melhor, contabilizando-se menos acidentes de
trânsito. Lamenta-se que o número de ocorrências tenha caído somente
em razão da severidade da lei, ao atingir o bolso com multas mais
pesadas, além da perda da CNH e prisão nos casos mais graves.
Configura-se então inversão de valores entre vida plena e posses
materiais. Contudo, antes assim do que a continuidade da escalada
das tragédias, das quais resultam deficiências físicas, mortes e
muito sofrimento a transcender o das vítimas diretas. Muitas vezes é
necessária a varada para que o ser humano aprenda a lição; para que
compreenda que nada compensa a morte ou a inutilidade física, mas o
sacrifício do prazer e vaidades pode resultar em mais vida!
Enquanto se comemoram os
primeiros sessenta dias com menores índices de acidentes de
trânsito, vem a lei da obrigatoriedade do ensino da música nas
escolas. Se a lei contra o álcool ao volante ensina pela pancada,
causando efeitos benéficos imediatos, a música ajuda na educação e
formação, por despertar no indivíduo o que de melhor ele pode ter
para superar e dominar o lado negativo. Não provoca efeitos
imediatos, mas pode corrigir rumos e tendências em proveito de
melhor equilíbrio nas relações humanas das futuras gerações, com
redução significativa dos índices de violência.
Para alguns pode parecer
paradoxal falar da música como fator educativo contra a violência,
quando se ouvem opiniões aqui e ali a focá-la como causa de
violência. Na verdade, o que essas pessoas qualificam como música
não passa de ruído ou cacofonia das mais irritantes. É esse tipo de
manifestação que induz à violência, sobretudo por meios eletrônicos
a altíssimos decibéis, ressaltando-se que em alto volume a melhor
das músicas irrita também. Logo, não é a música que causa violência
e, sim, seu alto volume.
Registre-se a feliz
coincidência da assinatura da lei pelo presidente da República na
mesma semana da realização do I Seminário de Música do Museu da
Inconfidência, sob o tema "Bandas de música no Brasil". Pela
primeira vez, esta região, onde se concentram o maior número e as
mais antigas, no estado que as lidera em quantidade no cenário
nacional, as bandas foram alvo de debate sério por autoridades e
estudiosos da área. Um dos palestrantes lembrou que as bandas
poderão em muito contribuir no ensino da música nas escolas, uma vez
que a licenciatura tem preferência, mas não é obrigatória para a
nova matéria, em decorrência do número insuficiente de titulados.
Quem ensina nas bandas poderá ser chamado a ensinar nas escolas
regulares, desde que provada sua capacidade. Se as bandas são
capazes de formar instrumentistas que, mais tarde, ingressam em
bandas militares e em grandes orquestras, seus mestres estão
preparados para ensinar a música nas escolas. As escolas têm três
anos para a adaptação e se espera que levem o assunto a sério e não
induzidas ao mesmo erro de organizações que formam grupos de tambor
e lata e dizem estar a ensinar música.
Aí seria oficializar a
cultura do "tan-tan", fenômeno responsável pela adição do ritmista à
lista das "espécies em extinção", na área artística. A prosaica
valsa é massacrada por percussionistas que, de ritmistas, nada têm!
E nem o samba, ritmo brasileiro por excelência, escapa à fúria do "tan-tan"
desordenado, contando com mãozinha – ironia das ironias –das escolas
de samba cariocas que, a cada ano, mais sacrifica suas
características rítmicas em favor do espetáculo visual produzido
para turistas.