"Quem não deve
não teme" e nem treme!
Poucos não são os
que, como o responsável por este pedaço, se perguntam pela diferença
entre uma pessoa e outra no que toca ao ter, ou não, nome revelado aos
quatro cantos, quando lhe pesa nos ombros suspeitas da prática de
delito. Sim, porque, embora se apregoe direitos iguais perante a lei,
nem sempre isso se confirma na prática. E há até uma explicação
cínica para essa maleabilidade na aplicação. De advogado experiente
ouvi certa vez que tudo é uma questão de menos ou mais valia. Disse
ele que, como autores de crimes da mesma qualificação o grande
empresário/figurão e o cidadão comum acabam por ter penas
diferenciadas ao fim do julgamento. No caso do empresário ou figura
proeminente, pesa a seu favor o número de pessoas cujas vidas dele
dependem economicamente. Sua pena pode ser atenuada em relação à
imposta ao cidadão comum. Isso é puro cinismo, porque se a mesma
pessoa é subitamente colhida pela morte, de alguma maneira seu lugar
como provedor do sustento de terceiros será ocupado. Ninguém é
insubstituível!
A sociedade manifesta
sua indignação contra o que chama de prática de duas leituras, quando
os focos das atenções pertencem a dois mundos opostos
sócio-economicamente. Entretanto, essa mesma sociedade que imputa à
Justiça a prática de "dois pesos e duas medidas" comporta-se
do mesmo modo. De um pobre diabo, o boato ruinoso cria asas e se espalha
pela comunidade, sem que ninguém cuide de averiguar a veracidade das
palavras caluniosas, ou atenuar-lhes os efeitos, quando e se descoberta
sua verdadeira natureza. É possível que a vítima carregue,
imerecidamente e para o resto da vida, a ignomínia! Do figurão ou
medalhão tenta-se cobrir pecados, e a própria sociedade o faz, assim
como o bichano com seus excrementos, não vendo, porém, que indícios
evidentes denunciam a sujeira.
Há mais de trinta
dias vereador com assento na Câmara Municipal de Ouro Preto teve
prisão decretada pela Justiça de Conselheiro Lafaiete, por suspeita de
receptação de carga de pneus roubada. Desde então, o vereador
encontra-se em lugar incerto e não sabido, tendo o delegado de Polícia
comparecido à Câmara com a ordem de prisão contra o suspeito. Pesa
contra o vereador o fator ausência voluntária diante do mandado de
prisão, contrariando o aforismo que diz "quem não deve não
teme". Ao invés de se apresentar e se defender, o vereador
preferiu continuar escondido, enviando à Câmara, por intermediário,
pedido de licença de trinta dias, no que foi prontamente atendido.
Mesmo sendo apenas suspeito, não podendo ser condenado por ninguém
antes que se façam provas e seja julgado de acordo com a lei, ele é
pessoa pública e os fatos são públicos, do que se depreende o direito
de o público tomar conhecimento. Entretanto, a imprensa se fechou em
copas e todos estão a pisar em ovos, quando se toca no assunto. Muito
estranho esse comportamento diante do que se presumia ser apenas uma
carga de pneus, eventualmente desviada do seu destino legal! E essa
mesma sociedade cobra moralidade, num assomo de hipocrisia!
De repente, a
liberdade de imprensa, largamente reclamada, requerida e defendida em
arroubos de heroísmo, é mandada às favas, em nome de não se sabe o
quê: uma quimera ou a ponta de gigantesco iceberg. A auto-censura é
como auto-mutilação moral, pior do que a censura imposta, da qual o
veículo dificilmente se livrará se qualquer poder ou alguém, que se
julgue com direito, quiser praticá-la. A quem aplica a auto-censura
faltará o cerne, que torna a imprensa invulnerável aos caprichos
inconfessáveis dos poderosos! VEJA
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