PONTO DE VISTA DO BATISTA

Novos hábitos necessários

A população do município de Ouro Preto se prepara para deixar de ser, talvez, a única no Brasil que não paga pelo consumo de água. Antes de ter o consumo medido com a instalação de hidrômetros, cada pena d’água passa a pagar tarifa mensal, em lugar da taxa anual cobrada junto ao IPTU.

Se todos pagam, vamos também pagar, deixando para trás a choradeira diante da maldade política de candidatos a prefeito que, sabendo da ojeriza da população local pela Copasa, disseminavam boatos de que candidato rival traria aquela empresa estatal para explorar o serviço de água e esgoto em Ouro Preto. Vários pleitos se realizaram sob esse fantasma, ferozmente esconjurados por gregos e troianos do eleitorado; candidatos venceram, outros perderam em relação direta com o tema. O tempo passou, muita água rolou e, nesse processo, mentes se clarearam, chegando-se ao consenso popular em que o pagamento pelo consumo da água é aceito, desde que o valor atribuído seja o custo razoável do processo de tratamento mais o de distribuição, pois a água em si é bem natural, imprescindível à vida humana e, por isso, inegável ao indivíduo.

Enquanto não vêm os hidrômetros, há que se corrigirem hábitos antissociais, profundamente arraigados e de difícil abandono, mas desejavelmente contidos em níveis toleráveis quando não prejudiciais à coletividade. Lavar a calçada ou o carro com esguichos de mangueira, o mesmo fazendo para "apagar" a poeira da rua; manter vazamentos crônicos na rede hidráulica; manter boia danificada, torneira relaxada ou esquecida a jorrar água. Tudo isso leva a desperdício puro e simples quando não ocasiona a falta em outros domicílios. Registre-se também o desperdício causado pelo próprio serviço público, nem sempre coerente com o que prega e omisso quanto a providências imediatas para sanar vazamentos e evitar que falte o líquido em outros pontos. Mantidos os hábitos perniciosos, em futuro próximo o custo do desperdício sairá do bolso de cada um.

No entanto, entre os centros urbanos dos distritos e o distrito sede (cidade de Ouro Preto) há uma diferença quanto à consciência do desperdício, pois nesta última sempre houve água encanada, enquanto na roça (como gostam de dizer "trezentões" da sede municipal) ela era carregada em "lata d’água na cabeça", como bem definia empolgante samba carnavalesco dos anos cinquenta. Cachoeira do Campo, população em torno dos dez mil habitantes, é distrito maior que muitas cidades e nem tanto tempo o separa de quando não tinha água distribuída aos domicílios, além de uns poucos privilegiados. Assim como nos demais distritos, incluindo-se o distrito sede que tinha água nos domicílios, sua população não pagava pelo consumo, mas sabia o quanto custava o desperdício; cada gota desperdiçada era cobrada em esforço dos da casa para manter os depósitos domésticos em níveis razoáveis.

Minha família, por longo tempo, residiu em casa não servida por água, além de a rua também não ter rede elétrica. Pelo menos uns trezentos metros nos separavam do chafariz público mais próximo. Havia que estar munido de lata de vinte litros (embalagem de banha de porco, manteiga, óleo vegetal), com disponibilidade para aguardar na fila, força e disposição para carregar o peso ladeira acima, entre pedras mal colocadas, buracos, e muita lama nos períodos chuvosos. Com meus oito anos e uma lata de dez litros já ajudava a mamãe encher o alguidar. Engraçado é que somente lá em casa o depósito de água era assim chamado. Hoje, sei que é palavra de origem árabe. Na fila da água aconteciam situações engraçadas, desde brigas causadas por fura-filas até indignação pelo aspecto da água que, devido à pressão, às vezes, jorrava na lata como se misturada com cal ou leite, tão espumante se mostrava. Depois de alguns segundos, o(a) aguadeiro(a) doméstico(a) descobria que nada de anormal havia com a água. Os chafarizes, normalmente, funcionavam das sete às dez horas e das quinze às dezessete. Fora desses horários, não havia água.

Por aí se vê que os munícipes "da roça", se não com dinheiro, com muito sacrifício pagavam para ter a água em suas casas. Portanto, sacrifício menor será pagar pelo custo operacional, em níveis razoáveis, desde que a água chegue a todos, sem interrupções prolongadas e com qualidade de acordo com padrões da Organização Mundial da Saúde-OMS.

E, para começar, o SEMAE bem que poderia, às vezes, aumentar a dose de água junto ao cloro usado no processo de tratamento!

nbatista@uai.com.br

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