PONTO DE VISTA DO BATISTA

O óbvio ululante

De vez em quando é bom que se misture ao sério e grave algo mais leve, até jocoso, entre temas aqui tratados, uma vez que vida é assim também, um combinado de situações heterogêneas. E graças a Deus que assim seja, pois seria muito difícil só ler e ouvir falar de políticos corruptos, gangue das ambulâncias, "mensalões", "mensalinhos", gangues da Previdência e CPIs que não dão em nada; bandidos que dominam cidades, polícia que não atua ou atua mal, governo que não governa ou não tem força para tal.

O que me levou a esta abordagem foi o título "Lista do que fazer antes de morrer" como chamada para matéria em jornal de grande circulação. Como diria Nelson Rodrigues, o "antes de morrer" é o óbvio ululante, pois não me parece dentro dos padrões de sanidade mental alguém ter lista do que fazer "após morrer". Do corpo se sabe o que será feito, primeiro pelo nosso próximo que não deseja o nauseabundo por perto e, depois, pelos vermes e elementos da natureza. De quem foi seu "morador" durante um átimo da eternidade nenhuma vontade se impõe, porque defunto não tem querer. No tocante ao "ex-morador" ou personalidade alma, somente conjecturas há, nos campos da filosofia e da religião, com relação ao porvir no outro lado da vida. Entretanto, antes da filosofia e da religião, a própria lógica e o bom senso apontam, aos que crêem, uma vida moralmente digna como passaporte para o bem-estar no além.

Mas, vamos falar mesmo é do óbvio, vício dos mais intrometidos na linguagem do dia-a-dia. Os dicionários dizem que óbvio é o "fácil de descobrir, de ver, de entender"- "que está diante dos olhos"- "que salta à vista", etc. Eu acrescentaria que "obvio" é o que não precisa ser dito ou escrito. Está na cara e só não entende quem não quer! "Antes de morrer", com referência às ações de uma pessoa, é expressão daquelas que fazem a irritação do "seu Saraiva" - personagem do reino humorístico - assim como "subir pra cima", "descer pra baixo", "entrar pra dentro", "sair pra fora", classificadas gramaticalmente como pleonasmo. Mas, a toda hora ouve-se "fulano me disse antes de morrer", "antes de morrer, beltrano preparou testamento", e por aí vai. Em outras situações ouve-se, por exemplo, "Sicrano fez casa nova?", ou então "fez roupa nova?": dando ao interlocutor atento uma vontade danada de responder : não, ele fez casa velha com reboco a cair, telhado "selado" e esburacado, vidraças ("vitrôs", para os paulistas) quebradas, pronta para cair quando o proprietário nela entrasse; confeccionou-se a roupa já bem puída, desbotada, com alguns rasgões e falta de botões.

Um tanto diferente da obviedade observada nas situações anteriores, temos outro caso curioso, talvez pouco observado, mesmo porque depois de tão arraigado, requer mais capacidade perceptiva. Antes da lâmpada elétrica, dizia-se, corretamente, acender (ou apagar) a vela, o lampião, a lamparina, a lareira. Difundida pelo mundo a invenção de Thomaz Edison, generalizou-se, pelo menos em terras tupiniquins, a impropriedade "acender" ou "apagar a luz", "luz acesa" ou "luz apagada". Ora, estar acesa é condição inerente à natureza da luz. Há ou não há luz e pronto! Assim como se diz, acender a vela, acender o lampião, diz-se também acender a lâmpada. O que se acende, fica aceso e, se apaga, fica apagado, é o veículo por meio do qual se manifesta a luz, no caso, a lâmpada elétrica, o farol (vale também para o "farol" paulista), a lanterna e outros, assim como a vela, o lampião, a lamparina, etc.

E que haja LUZ em todos os quadrantes deste país!

nbatista@uai.com.br

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