PONTO DE VISTA DO BATISTA

Um olhar sobre o ontem

Sabe-se que nada é estático e tudo se transforma ao correr do tempo, mas nem sempre nos damos conta disso, motivo pelo qual ficamos surpresos ao nos depararmos com o diferente daquilo que vimos "ontem". Dizemos que somos a mesma pessoa, mas nosso corpo sofre mudanças com a contínua substituição de células, e, nossa atitude mental revela transformações, que só terceiros podem aquilatar. Outras vezes, quem não viu o ontem é que nos faz recordar.

A observação de uma jovem fez-me voltar no tempo e relembrar costumes, hoje mantidos por tão poucos a ponto de causarem estranheza. Manifestara-se ela surpresa com o costume do almoço às dez horas, muito cedo para os padrões atuais, mantido em casa de conhecidos seus. Nascida nos anos oitenta, quando outro ritmo já se imprimia à vida em Cachoeira do Campo, nem imaginava que outros costumes fossem seguidos antes do seu tempo, no mesmo local. Dei-me conta então de como distante pode estar uma geração da imediatamente anterior em razão das transformações cada vez mais rápidas. Ela tinha razão de estar surpresa com o fato, pois a grande maioria tem o seu almoço a partir das 11 horas, mas até os anos sessenta, que para nós outros não estão tão longe assim, almoçar às 10 horas, tomar café às 14 e jantar às 17, era o mais comum entre as famílias cachoeirenses. Herdado do período em que as atividades rurais ainda eram o forte da região, o costume das refeições mais cedo denunciava a longa jornada do trabalho no campo, que se iniciava pela madrugada e só encerrava ao por do sol. As pessoas acordavam, antes do raiar do dia, com "cantar" dos carros-de-boi que se dirigiam para as roças. Por isso, a primeira refeição era tomada antes das seis horas, justificativa para o almoço às dez horas e jantar às dezessete, intercalados pelo café também chamado de "merenda das duas". Aliás, os anos sessenta foram pródigos em mudanças nos costumes, não só em Cachoeira do Campo, que teve sua rotina alterada pela Cemig em 1963. As mulheres, em todos os quadrantes, se libertaram do vestido, saia, combinação e anágua e se mobilizaram para a conquista da igualdade de direitos; o luto convencional, ao qual a família do finado ficava presa, obrigada a vestir roupa preta durante um ano, caiu aos poucos e desapareceu. Foi um grande alívio. A quem não viveu aquela época, sugiro imaginar família a sofrer mortes de seus membros em anos sucessivos.

Por coincidência, quando redigia essas considerações, lembrando-me de Cachoeira do Campo como a primeira comunidade em toda a região a ser iluminada pela Cemig, caiu-me às mãos exemplar do boletim-programa da inauguração do serviço de eletricidade pela Companhia Força e Luz Cachoeirense. O fato se deu dia 30 de dezembro de 1928 com muita festa, das 8 às 19 horas: recepção ao "auto-omnibus e automóveis especiaes", na Garage (era como o povo chamava então a, hoje buliçosa, Praça Coronel Ramos, desde que ali que se abrigou o primeiro automóvel a rodar na localidade); missa campal ao pé do cruzeiro de pedra, na Praça Phelippe dos Santos; bençam da Uzina Electrica; bençam do transformador electrico da Praça Bom Despacho; bençam do transformador electrico da Praça Phelippe dos Santos; acendimento da iluminação; e o solemnissimo Te-Deum. Observem que um ato inaugural não bastava. A usina e cada um dos transformadores mereceram sua vez. As duas bandas de música se mantiveram ocupadas durante o dia, em todos os atos solenes, além de retretas nos intervalos. Afora a ortografia, chamam a atenção o estilo redacional e alguns termos usados. Referia-se a Cachoeira do Campo como arraial, coisa temerária nos dias atuais; auto-omnibus não passava de mísera jardineira ou perua (carroceria de madeira), mas devia ser o chique em transporte coletivo.

Mas, o que mais se destaca é a ousadia do empreendimento, que requereu altas doses de idealismo e vontade de investir em comunidade tão pobre. Com todo diferencial alcançado pelo distrito nos últimos anos, duvido que meia dúzia de empresários locais, hoje, tivesse o mesmo topete.

nbatista@uai.com.br

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