PONTO DE VISTA DO BATISTA

Os olhos e a remela

Estava, dia destes, a pescar amenidades em jornal de grande circulação e dei de cara com texto de colega (penso que posso assim chamá-lo) a discorrer sobre peripécias suas, em shopping center, quando em seguida a busca de presente para amiga, passou a cuidar de suas necessidades alimentares.

O que me chamou a atenção foi que ele, em sendo espécime de fino gosto gastronômico – pelo menos deixa isso entender, quando escreve – ao invés de abastecer o estômago ali mesmo, optou pela comida abafada na tal marmitex, ou quentinha, para ser devorada em casa. Aquilo mexeu comigo, pois entendo que comida, depois de sair da panela, não merece clausura que não o aparelho digestivo onde cumprirá seu papel de nos gerar energia vital. No percurso entre a panela e a boca, o alimento deve estar livre, a espargir seu aroma – comida sem aroma não merece ser consumida -, aguçando ainda mais o apetite. Comida presa, em marmita ou congênere, só em circunstâncias forçadas pelo trabalho, e olhe lá!

Nasci pobre e me considero pobre melhorado, mas não abro mão da comida livre, solta e fumegante (com exceção dos dias atuais de canícula, em que as saladas devem prevalecer) no prato, para ser apreciada em companhia de alguém, porque alimentar-se é também ato social, razão pela qual estar sozinho à mesa é quase egoísmo. Deixar de usufruir da comodidade oferecida pelo shopping, por meio da praça da alimentação, se ali já está, ou em outro qualquer restaurante, preferindo embalar a comida e leva-la para consumir em casa, e ainda sozinho, é o fim da picada. É minha opinião. Enfim, há gosto para tudo. Uns gostam dos olhos, outros da remela!

E já que se falou em "praça da alimentação", esse termo caiu no gosto popular e até há quem aplique a mesma denominação à sua sala de jantar. Neste país grande e bobo, arremeda-se, copia-se tudo! Quanta falta de imaginação!

Para pessoas eventualmente sós, e sem afinidades com a cozinha – não é o meu caso que, não sendo chef, me viro muito bem com o trivial – casas de repasto muito evoluíram nos serviços oferecidos, desde o tempo em que qualquer espelunca chamada restaurante, a comida chegava à mesa por meio do garçom ou garçonete, quase sempre os próprios donos ou o profissional da cozinha. Entre o pedido e a chegada da comida à mesa havia uma eternidade - preenchida pela mastigação de fatias de pão seco - a abusar da paciência do cliente que, muitas vezes, desistia e corria para o concorrente.

Atualmente, o autosserviço ("self service" para os que gostam de destroncar a língua) com opção de pesar a comida, na quantidade e variedade escolhida, deixou para trás, no tempo e na ineficiência, surpresas desagradáveis como má qualidade da comida, de serviço, preços extorsivos e até humilhações aos de baixo poder aquisitivo.

Aos que não viveram aquele período explica-se a origem e o porquê das humilhações. Por meio da SUNAB (Superintendência Nacional do Abastecimento, extinta em 24 de julho de 1997), o governo tentou ser simpático ao povo e criou o prato popular. Todos os restaurantes eram obrigados a ter aquele "pê-efe", constituído de arroz, feijão, guisado de legume, carne e copo de refresco, a preço mínimo tabelado. Restaurantes mais chiques, não que fossem desobrigados, ficaram de fora porque camadas mais humildes da população se excluem, por conta própria, de ambientes finos. As demais casas do ramo não se furtaram ao atendimento exigido pela SUNAB, mas o fizeram de modo a espantar tal clientela. À solicitação daquele "prato feito", o garçom gritava bem alto para a cozinha: solta um "sunaboia" para o cavalheiro da mesa cinco!" Em pouco tempo, o tal prato ficou desmoralizado.

Conquanto existam restaurantes com serviço "à la carte", indispensáveis para almoços de negócios, celebrações especiais, jantares românticos, e aos que não dispensam atendimento personalizado, há que reconhecer a democratização da alimentação fora de casa, trazida por meio do autosserviço, acessível a mais pessoas, em menor tempo e com menos desperdício.

Mas ainda há quem prefira marmita. Deus seja louvado!

nbatista@uai.com.br

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