PONTO DE VISTA DO BATISTA

Omissão, sinônimo de covardia

Findo o reinado de Momo, passemos nossa atenção para a cruz que, no passado, era o mote de toda a quaresma, ganhava relevância na Semana Santa e tinha ponto culminante, sexta-feira, no Calvário. Neste ano, mesmo antes do carnaval, a cruz tem ocupado a atenção dos cachoeirenses, desde que imbecil se arremeteu com veículo contra o, duas vezes centenário, Cruzeiro de Pedra, no centro da cidade.

O histórico monumento em cantaria foi alvo de manifestação de desagravo e motivo de protesto contra os vândalos que a tudo destroem. Não tendo visto este escriba no evento, alguém perguntou por que não tinha comparecido. Respondi então que teria comparecido antes de o fato acontecer, se manifestação semelhante tivesse sido organizada como denúncia da baderna, naquele espaço/tempo, e alerta às autoridades sobre os riscos de sérios acidentes e, quiçá, tragédias. Não que queira desmerecer o movimento, bem conduzido, pois tudo tem sua validade, mas eu, particularmente, não vejo o lado prático, ou seja, como evitar que vandalismos aconteçam e se repitam, mediante manifestações como a realizada. Têm seu valor político e mostram o que pensa a face cidadã da comunidade, mas não têm poder de desfazer o já feito. Manifestações pós prejuízos contabilizados é apenas chorar leite derramado!

A cruz foi partida, e agora? O acontecido, segundo murmúrios e vozes veladas, não foi surpresa, pois o local, em noites de domingo, há muito tempo, é arena onde se exibem loucos sobre rodas. Afora isso, o mesmo cruzeiro foi escalado certa vez, tendo o infeliz despencado lá do alto, depois de retirar a tabuleta com a inscrição INRI.

Essas coisas não acontecem somente por falta de policiamento, mas, sobretudo por falta de compromisso do cidadão com a ordem, interesses e patrimônio públicos. Resumindo: o povo também é culpado por omissão, por não denunciar delitos de que são testemunhas e manter, na sombra, suspeitos da prática de delito. A verdade é que poucos assumem posição cidadã, preferindo a maioria cacarejar críticas e levantar suspeitas "fora do ar". Levantada a possibilidade de tê-las como testemunhas, impostam a voz e saem pela tangente: ah! mas não fica bem. É melhor deixar pra lá. A cultura do "deixa pra lá" é o grande estimulante dos delitos e nela assenta-se a impunidade, facilitada pelo jeitinho tupiniquim. O caso do Cruzeiro de Pedra não teria acontecido se ação, em sentido contrário, tivesse sido empreendida por quem assistia ao exibicionismo estúpido. E a polícia? Alguém chamou? – Ah! mas, a polícia não faz nada! Então denuncie a polícia também, pois ela é paga (bem ou mal) para isso. Parte dos impostos que todos pagam é para garantir a segurança pública. Que haja transparência nas críticas!

Criticar com fundamento e abertamente, reclamar, denunciar e cobrar ação das autoridades é direito do cidadão, mas em certos casos constitui dever que, se não cumprido, torna o omisso cúmplice do delito cometido. Quem viu o que estava para acontecer, em relação ao Cruzeiro de Pedra e nada fez para impedir, é cúmplice do crime cometido contra o patrimônio público e a memória da coletividade.

Em relação às autoridades competentes em cada setor, o cidadão precisa desfazer-se do medo e sair das garras da subserviência, para cobrar-lhes ações para o bem comum, pois é para isso foram eleitos e para isso que são pagos. E não venham os "rancorosos" de esquerda dizer que medo e subserviência são sequelas do último regime de exceção, pois talvez seja o contrário. Medo e subserviência foram herdados do Brasil colônia e preservados por políticos, em benefício de seus interesses e para melhor impor suas vontades ao povo.

Ainda que o cidadão seja qualificado de "mal humorado", "reclamador", "criador de casos", "encrenquinhas", sua posição em defesa dos próprios direitos e da coletividade deve ser mantida. Antes ter esses qualificativos, saídos da boca dos poderosos, do que merecer do povo os de "puxa-saco", "capacho", "lambe-botas" e outros "títulos", que só o diminuem dentro da comunidade.

nbatista@uai.com.br

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