Diretores e
músicos mais antigos de corporações musicais (especificamente
"bandas", antes que o termo fosse arrebatado por qualquer dupla de
pandeiro batido com a bunda e guitarra desafinada) sempre se
queixaram do desapreço, descaso, com que são tratadas ou, pior, do
esquecimento a que, muitas vezes, são relegadas. O município de Ouro
Preto que, ao lado de Mariana, detém o maior número delas no estado,
incluindo-se duas entre as mais antigas do Brasil - fundadas ainda
sob a monarquia - deveria ser o mais destacado entre os oitocentos e
cinquenta e três no apreço, valorização e ações de preservação das
corporações musicais. É que Ouro Preto, como capital da província,
antes da República, era o polo irradiador da música, razão pela qual
a maior parte e as mais antigas delas estão situadas num raio de
cento e cinquenta a duzentos quilômetros. Mas, não é o que acontece,
embora se tente mascarar o descompasso entre a política cultural e a
atuação das bandas de música com sede no município.
Atualmente, nove
são registradas, em plena atividade, e duas se organizam, em
tentativa que comunidades fazem para preencher espaços deixados por
duas que se extinguiram anteriormente, vítimas do desleixo cultural
generalizado. Entretanto não contam com o mínimo que merecem por seu
trabalho no município.
Mediante
voluntariado dos músicos, elas participam de eventos, os mais
diversos, com destaque para os de natureza religiosa de confissão
católica. E para que isso aconteça de forma continuada, ao longo dos
anos, cada banda tem sua escola gratuita de música, por meio da qual
prepara instrumentistas que, integrados às fileiras, têm
oportunidade de se tornar melhores cidadãos mediante a prática do
companheirismo, confiança mútua e disciplina, o tripé de sustentação
moral do grupo. Por aí se vê que a banda é também escola e como tal
deveria ser vista, considerada e amparada. E esse amparo que se
pleiteia não é a sua sustentação, pura e simples, de cunho
paternalista, porém mediante leis que lhes garantam condições
mínimas na caminhada com suas próprias pernas, embora outras
entidades culturais e não filantrópicas, como as próprias bandas de
música, recebam polpudas verbas.
Aproxima-se o
carnaval e, dentro em pouco, as escolas de samba serão contempladas
com significativas subvenções, para empreender o desfile anual na
Praça Tiradentes. Quanto às bandas, que nada recebem da prefeitura e
atuam durante todo o ano, alega-se ser inconstitucional a subvenção.
Mas, só no município de Ouro Preto? Já se disse também que as bandas
seriam desorganizadas. Como? Estão devidamente registradas,
cadastradas nos órgãos competentes e geridas por diretorias
regularmente eleitas. Teriam que ser representadas por associação
específica. Criou-se então a Associação das Bandas de Música do
Município de Ouro Preto-ABAMMOP, mas não surtiu efeito prático,
aventado pelo próprio poder público. A orientação dada, em seguida,
seria o cadastramento no Conselho Municipal de Cultura. Aí, o
direito das bandas, no município, empacou de vez porque o tal
conselho não funciona. Apontam a porta de entrada, mas a mantêm
fechada!
Em administração
politicamente oposta à atual, adotou-se esquema em que a prefeitura
assume o pagamento por participação das bandas em eventos promovidos
por terceiros (eventos religiosos). Nitidamente catador de votos e
predador da criatividade popular, o esquema se revelou extremamente
cruel para com elas que, quando recebiam da prefeitura, era quase um
ano depois. Grande parte dos serviços não foi paga. Da nova
administração esperava-se a extinção do esquema, mas o que se viu
foi sua consolidação. E eis a brutal incoerência. É inconstitucional
subvencionar as bandas, mas, não o é pagar-lhes pela participação em
eventos promovidos por terceiros, que deveriam ser os responsáveis
pelo pagamento! Felizmente, no ano passado, as participantes do
esquema – quase a totalidade – receberam pelo que realizaram, mas
muito prejuízo tiveram em anos anteriores.
Quanto a eventos
oficiais voltados para as bandas, a exemplo de outros municípios,
nada se fala, embora o secretário de Cultura e Turismo seja músico.
Política de preservação, promoção, aprimoramento e estímulo às
bandas de música simplesmente não existe no município de Ouro Preto!
Mas, a culpa pela situação o poder público divide com as próprias
bandas, cujos diretores, conservadores e acomodados, abaixam a
cabeça e engolem tudo. O medo de assumir posição contestatória
diante do poder - característica marcante no brasileiro - assume
papel preponderante na subserviência das bandas de música à vontade
estranha aos seus próprios interesses, que a ABAMMOP encarna e
pretende defender.
Em meio a tudo
isso, uma das bandas ouropretanas é lembrada por amigos do alheio: a
Sociedade Musical Santarritense, do distrito de Santa Rita de Ouro
Preto, teve sua sede "visitada", uma semana, antes do Natal, ocasião
em lhe furtaram onze instrumentos. Instrumentos musicais, neste
país, são de difícil venda e entre os furtados há alguns específicos
de banda. Por que, por quem e para que foram furtados? Embora
inusitado, o fato não mereceu atenção da imprensa e só foi divulgado
mais de vinte dias depois, o que certamente contribuiu para
facilitar aos ladrões a consumação dos seus objetivos.