PONTO DE VISTA DO BATISTA

Ouro Preto e o ônus da fama

Mais uma vez, a polêmica se estabeleceu em torno da realização de um megaevento oficial em Ouro Preto. Com olhos e ouvidos voltados para as restrições que a realização da Cúpula do Mercosul impôs por algumas horas à vida normal da cidade, vozes críticas se elevam a maldizer o evento, como se fosse ele o causador de todos os males que afligem o ouropretano ou o pior que aqui acontece.

Do ostracismo a que ficou relegada, por longo período, com a perda do status de capital mineira, Ouro Preto ascendeu até se projetar internacionalmente, ganhar ares cosmopolitas e se tornar ponto de partida para a garantia de visibilidade e sucesso a iniciativas diversas, desde o artista desejoso da celebridade até produtos, movimentos e associações de feição internacional, passando pelo político que sonha voar mais alto. Isto se processou, num crescendo ao longo de alguns anos, até que a cidade mereceu ser incluída entre as obras humanas de vulto, recebendo assim o título de "Patrimônio Cultural da Humanidade". De lá para cá, tudo que acontece em Ouro Preto ganha destaque na mídia. Mas, qualquer notoriedade interfere na privacidade, seja na vida individual ou de uma comunidade, como o caso de Ouro Preto, e isso exige certo jogo de cintura, para que prejuízos não haja nem numa e nem noutra esfera. Lamentavelmente, a mentalidade ouropretana não evoluiu no mesmo ritmo, não se sintonizou com os novos tempos e circunstâncias vividas pela cidade. Em tempo de comunicação rápida e direta, fator preponderante nos negócios do turismo, em Ouro Preto, ainda há, por exemplo, casas de hospedagem não conectadas à internet! Faltou, ao longo das últimas décadas, o preparo, a educação para que a população assumisse o papel que lhe cabe dentro do quadro que comporta pólo turístico, centro artístico-cultural, depositário de informações históricas, irradiador de decisões políticas e outras posições que Ouro Preto pode acumular em decorrência do que é e do que representa para a nação brasileira. Reclamar contra transtornos temporários causados pelo encontro histórico de quase a unanimidade dos governantes sul-americanos é querer jogar fora a oportunidade que muitas cidades gostariam de ter, mas não têm porque não são especiais como Ouro Preto; é fingir que não houve compensação de outras formas e em outros momentos; é supervalorizar o ínfimo dos problemas quando se sabe que outras cidades no mundo estão verdadeiramente sitiadas, sob domínio estrangeiro, há longo tempo, sem que suas populações saibam quando voltarão à normalidade.

A "ocupação" da cidade para a realização de eventos do governo não é coisa nova, pois antes do regime militar o mesmo se fazia no dia 21 de abril. Embora o impacto fosse menor porque poucos veículos havia, pedestres eram incomodados a cada esquina. A cidade perdia a autonomia nesse dia! A estrada, hoje denominada Rodovia dos Inconfidentes, era interditada ao público enquanto por ela trafegava a comitiva oficial, tanto na vinda quanto no retorno. E não era por pouco tempo, uma vez que a viagem entre Ouro Preto e Belo Horizonte gastava, em média, três horas. Paradoxalmente, o afrouxamento dessas medidas se deu durante o regime militar.

Ouro Preto tem todo o potencial, material e humano, para brilhar, mas se perde em questiúnculas; chuta o que tem em casa e vai longe buscar o fiasco!

nbatista@uai.com.br

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