|
PONTO DE
VISTA DO BATISTA
O verdadeiro ópio do povo
Sei que ponho a
mão em vespeiro e que este velho escriba corre risco de ter a turba
enfurecida a cair-lhe de pau no lombo, mas – que fazer? - se não
digo, fico com o assunto entalado na garganta a dar-me sensação de
covardia, medo de expor opinião própria e fazer oposição, como
vítima diante do assaltante de arma em punho. Prefiro cuspir o
caroço da azeitona, que não comi, a ter de engoli-lo só porque a
grande maioria o faz. Não escrevo para agradar a quem quer que seja
e se, eventualmente, agrado, tudo bem, mas, se não, que se dane; o
mundo não vai acabar por isso. Não tenho mesmo vocação para lambedor
de botas da minoria de poderosos e muito menos para demagogo diante
do oba-oba da multidão! Na democracia, respeita-se a opinião da
maioria, mas isso não quer dizer que se concorde com ela, ou mesmo
que esteja correta! Portanto, aturem-me, como eu os aturo, ó
futebolistas inveterados!
O país das
chuteiras entrou em delírio com o anúncio de que em 2014 será sede
da Copa Mundial de Futebol, fato há muito aguardado, motivo até
mesmo viagem do presidente da República e seu séqüito a Europa. Se,
na rotina, maior espaço da mídia está reservado ao futebol e
assuntos correlatos, pelo menos o dobro será durante sete anos e
mais sete, o que equivale dizer que mais tempo será desviado do
trabalho produtivo, da atenção à cultura, do usufruto de outros de
tipos de lazer, dos cuidados com a educação e saúde, equivalendo
isso a também cortes nos recursos destinados ao atendimento das
mesmas necessidades. E aqui se fala apenas do que cabe ao povo, que
será seduzido a todo momento com promoções de todos os gêneros, para
rechear cofres da indústria que, além da existente em torno do
futebol, será montada em torno do megaevento.
Há muito o
futebol, que deixou de ser esporte para se transformar em rentável
atividade econômica nas mãos de uma minoria, é fator de alienação do
povo, mais vítima do que beneficiário, em razão dos altos custos e
riscos inerentes ao ingresso nos estádios, dos prejuízos resultantes
do vandalismo ao fim de cada partida considerada importante, além do
estresse causado pela expectativa excessiva, muitas vezes desaguada
na frustração. A violência gerada pelo futebol, dentro e fora dos
estádios, é capítulo à parte, bastando observar o comportamento das
torcidas organizadas para se concluir que também a violência é
preparada antecipadamente, se não manipulada por mãos estranhas a
elas. Agressões verbais ao juiz, antigamente tidas como válvula de
escape à raiva, insatisfação e decepções na semana anterior,
converteram-se em guerras de grupos a gerar mortos e inválidos.
O embarque do
governo na aventura da Copa de 2014 bem representa o grau de
irresponsabilidade, pois o Brasil está longe de ser país
estruturalmente preparado para evento de tais proporções, carente de
tudo na área social, e incapaz de solucionar problemas mais simples
devido à corrupção a corroer as entranhas da administração pública.
Investimentos vultosos serão necessários para se adequarem as
condições existentes às exigidas pelo organismo promotor da Copa do
Mundo. E essas exigências não se limitam aos estádios, dos quais as
obras necessárias ficarão a cargo do setor privado – pelo menos, é o
que dizem – pois a segurança pública, a malha rodoviária, o
transporte (em todos os níveis), os serviços de saúde pública são
extremamente precários em comparação com os padrões internacionais.
- Ah! Tudo isso o
governo deverá construir ou providenciar; é compromisso assumido, e
o que se fizer reverterá em benefício do povo – dizem babões, que
não faltam! - Duplamente irresponsável – digo eu. Irresponsável por
assumir compromisso dessa envergadura, em hora imprópria, e
irresponsável por negligenciar o cumprimento de suas obrigações
rotineiras no que toca aos serviços públicos, curvando-se ao mesmo
dever mediante imposição externa. Governos sérios cumprem seus
deveres de natureza básica sem que estranhos tenham que os impor,
mediante chantagem. E povo consciente dos seus direitos não bate
palmas para incoerência e insensatez.
Se Lênin disse
“a religião é o ópio do povo” é porque não conhecia o futebol!
nbatista@uai.com.br
TEXTOS
ANTERIOR |