PONTO DE VISTA DO BATISTA

Oportunistas versus hipócritas

Para a preservação do nosso organismo, a natureza dotou-nos de recursos cuja eficiência independe de nossa vontade, bastando manifestar-se o perigo para que entrem em ação, sem que tenhamos consciência disso. É o sistema imunológico, que impede a proliferação desordenada de bactérias e combate a intromissão de outros microorganismos como os vírus. Se não fosse assim não sobreviveríamos mais que algumas horas após o nascimento, pois os microorganismos que vivem em e do nosso corpo romperiam o ponto de equilíbrio, causando-lhe desgaste fatal. Entretanto, isso não é suficiente e o sistema de defesa se sobrecarregaria se não auxiliado por outros sistemas, sobre os quais nossa vontade exerce parcial ou total controle: são os cinco sentidos – visão, tato, olfato, paladar e audição - e as ações higiênicas que cada um pratica segundo sua vontade e cultura do seu grupo. Ao paladar, por exemplo cabe a missão de informar se determinado alimento colocado na boca nos agrada e se contém algum fator estranho, suspeito de nos causar mal à saúde. Detectada qualquer anomalia, a reação imediata é rejeitar o alimento antes ser engolido, ou mesmo mastigado. Desobedecer a essa reação natural pode ter conseqüências desagradáveis, mesmo funestas. Em sã consciência, ninguém quer repetir experiência desagradável causada por alimento, e seria puro sadismo comer algo, sabendo de antemão o que virá depois.

Mais ou menos dessa forma, deveria reagir o organismo social diante de indivíduos comprovadamente nocivos aos interesses coletivos e à harmonia entre cidadãos. Mas as conveniências, convenções, preconceitos e mais um sem número de fatores que tolhem e inibem uns, a outros servem de trampolim para a continuidade de práticas lesivas. Não poucas vezes, indivíduos que, eventualmente, tenham resvalado em pequenos erros são deixados à margem, não totalmente alijados do processo interativo, porém, contidos em patamar que não lhes permite avanços no seu círculo. Por muito que se mostrem com merecimento e não tendência a reincidência, as oportunidades lhes são tiradas sutilmente, porque a mácula continua a existir na da mente dos julgadores, embora o julgado não mais a mostre em suas ações.

Falta-lhes o que sobra em outros, estes, sim, contumazes trapaceiros, embusteiros, intrigantes, que vivem de sucessivos golpes e exploração de fraquezas alheias, sem que percam uma nesga do espaço ocupado. Pelo contrário, a cada intriga ou rasteira aplicada, aumenta-se-lhes o poder de enredar as pessoas, embora nas rodas seus nomes sejam citados com repugnância; só citados porque, na realidade, a hipocrisia fala mais alto às suas presenças insinuantes. Agem como predadores, sempre atentos à vaidade, cobiça e mexericos na seara alheia, para armar o bote e explorar situações em seu favor até que a vítima se descubra como tal. Tais fraquezas, cultivadas por quem tende a escolher atalhos em direção ao sucesso, poder e dinheiro, servem também àqueles parasitas de plantão na prática de seduzir incautos. Sempre disponíveis para "servir" aos que pensam ser espertos, esses profissionais do engodo conservam-se por cima porque suas vítimas, quase sempre, têm com eles o "rabo preso". Daí o zunzum injuriado longe do causador, porém destituído de qualquer ação neutralizante contra seus movimentos. Odiados de um lado, escarnecidos do outro, ambas as partes sob a capa do sorriso conveniente, dão-se as mãos até que os primeiros não mais necessitem de suas vítimas, ou estas se sintam realizadas. Até lá vence a hipocrisia!

nbatista@uai.com.br

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