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Certo dia, primeira semana de julho de 2001, Nylton Batista, redator
do O LIBERAL, chegou à redação a extravasar euforia. Diante da
curiosidade de todos, explicou que, na noite anterior, lançara na
web “site” inteiramente seu, com domínio próprio e elaborado por ele
mesmo. A surpresa foi geral, pois ninguém sabia do seu projeto. Dez
anos se passaram e, quando Ouro Preto comemora o tricentenário de
sua elevação ao status de vila, correspondente a cidade, hoje, o O
LIBERAL entrevista o autor da, então, considerada façanha, que agora
comemora 10 anos.

O LIBERAL – O que lhe fez acender a ideia do “site”?
NYLTON BATISTA –
Vários foram os motivos. Um deles foi o desafio que fiz mim mesmo,
pois a informática e a internet eram e ainda são consideradas áreas
para jovens; naquela época, com vinte anos, no máximo. Eu já era um
velho de quase sessenta, quando tomei contato com o PC.
OL - Quer dizer, idoso, não é?
NB
– Eu digo velho mesmo. A palavra, idoso, muda a condição do
indivíduo? Isso é uma bobice criada para enganar, para camuflar a
falta de atenção e o desrespeito para com os mais velhos e
desatentos.
OL – Você, então, quis derrubar o mito de que a nova tecnologia era
área exclusiva para jovens?
NB
– De certa forma, sim. Lembro-me que a criação de “sites” era quase
mistério e havia muita louvação a garotos, em início da
adolescência, que construíam e punham “sites” no ar. Entendi que a
coisa era mais de a pessoa se atualizar e avançar sobre o
desconhecido; estar em sintonia com as novidades que, realmente,
valem a pena.
OL – Você disse ter tido vários motivos; quais seriam os outros?
NB
– Além do desafio, depois das primeiras entradas na internet, final
de 1999, verifiquei que ela seria a grande oportunidade com espaço
infinito para publicação do que penso, escrevo, bem como para
divulgação de nossas coisas. O LIBERAL também influiu, pois o fato
de ter granjeado extenso círculo de leitores, em suas páginas, me
fez pensar em ampliá-lo além fronteiras; seria também uma homenagem
a Ouro Preto, não somente o distrito sede, mas o município como um
todo; e, por isso, foi lançado na Semana de Ouro Preto.
OL – Como foi a escolha do título e do endereço para o “site”? São
um tanto estranhos pois há mistura de Português com Inglês.
NB
– As primeiras críticas foram contra o fato de eu, sendo
cachoeirense, não tê-lo chamado Cachoeira do Campo e, sim, Ouro
Preto. Como já disse, o tema Ouro Preto é abrangente, pois envolve
todo o município e não somente o distrito sede. Até então, não havia
nenhum site com o nome de Ouro Preto; havia, sim, “sites” locais de
repúblicas estudantis, mas nenhum com o nome da cidade e município.
Já havia o site de Lavras Novas, mas de Ouro Preto, nada. Quem
pretende publicar na internet não pode pensar em termos locais. Por
que desprezar a chance de alcançar o mundo? A internet é democrática
e, em princípio, não tem fronteiras. Entre Cachoeira do Campo e Ouro
Preto, esta é mais conhecida que aquela. Há pesquisas sobre Ouro
Preto em todo o mundo. O nome Ouro Preto abre portas, vende, suscita
discussões e é conhecido internacionalmente. Sejamos bairristas, mas
nem tanto; não exageremos! À sombra de Ouro Preto pode-se ir bem
mais longe. Há que saber tirar bom proveito disso! Em política,
diz-se que ruim com Ouro Preto, mas, pior sem. A palavra “world”
(mundo) é também muito forte nos motores de busca na internet. Esta
foi a razão de o “site” ter recebido o título de OURO PRETO WORLD e
a url
http://www.ouropreto-ourtoworld.jor.br
. No entanto, o conteúdo refere-se mais ao restante do município do
que ao distrito sede.
OL – Realmente; quem acessa o site percebe que pouca divulgação se
faz da cidade de Ouro Preto. Por que isso?
NB
- Embora àquela época, praticamente, nada ainda houvesse, na
internet, sobre a cidade de Ouro Preto, sabia que isso seria por
pouco tempo. Sabia que o tema ainda seria muito explorado por outros
“sites”, por isso concentrei-me no município, de modo geral, mesmo
porque outros não se interessariam pela “roça”, como dizem os
“trezentões” do distrito sede. Hoje, conforme previsto, a web está
cheia de “sites” cujo foco principal é Ouro Preto, cidade. Certa
vez, um internauta questionou-me por não ter anunciado evento de
nível internacional. Expliquei-lhe que seria chover no molhado, pois
a badalação estaria em todos os outros “sites”; preferia
concentrar-me em eventos menos badalados. Ele acabou por concordar
comigo.
OL – E, por que a mistura de termos ingleses?
NB -
Critico muito o uso de termos em inglês no nosso idioma, mas, na
internet, a língua internacional não pode ser desprezada. O segredo
de qualquer “site” na web depende de palavras empregadas como
espécie de “isca”. A própria palavra “internet” demonstra o caráter
da rede mundial de computadores. Nela não se pode ter esses
escrúpulos, em se tratando de conquistar o público internauta. É
claro que, nos textos publicados em páginas da web, não se aplica o
mesmo princípio; aí vale o respeito ao vernáculo.
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OL – Você faz questão de dizer que o “site” é bastante artesanal e
prefere que assim continue.
NB
– De fato, ele foi elaborado com base em informações colhidas na
própria internet, tendo como plataforma o Front Page, que dispensa
conhecimento prévio sobre linguagem HTML. Posteriormente, fiz os
cursos de HTML, DREAMWEAVER, FLASH, e FIREWORKS. Entretanto, prefiro
manter o “site” conforme foi construído. Repare que a própria
logomarca deixa transparecer o formato artesanal do “site”. Foi
desenhada com recursos do Paint, contido em qualquer computador. O
formato artesanal é também uma alusão à forma como a cidade de Ouro
Preto surgiu: espontaneamente, de acordo com as necessidades do
momento, sem obedecer a qualquer traçado, mas acompanhando as
exigências da topografia.
OL – Como é a leitura da logomarca?
NB
– É composta por grande “W” de WORLD (mundo), no qual estão
inseridas as iniciais de Ouro Preto. As cores de Ouro Preto (O e P),
amarelo e preto, alternam-se com o fundo do “W”, significando que
Ouro Preto está inserido no mundo e com ele dialoga. O Itacolomi,
forte marca visual de Ouro Preto, se mostra estilizado nos dois
triângulos em verde, cor que com o amarelo forma uma das marcas da
identidade nacional. O triãngulo branco, ao lado esquerdo é apenas
apoio ao conjunto e complemento do quadrado em que se insere
OL – Agora, quantos compõem a equipe do OURO PRETO WORLD?
NB
– Não há equipe. Realizo tudo sozinho. Como é tudo muito simples,
não há necessidade de equipe. Preocupo-me, sim, com o conteúdo;
efeitos técnicos são dispensáveis, mesmo porque pesam muito na
abertura das páginas.
OL – Conte como foi a receptividade ao “site”, tanto na busca de
conteúdo, quanto na resposta do internauta.
NB
– Na busca de conteúdo, senti-me excluído e vi minha iniciativa
repudiada por pessoas que seriam beneficiadas, graciosamente, com a
divulgação de seus empreendimentos. Mas a maior decepção sofrida foi
na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo à qual recorri para
obter informações, especialmente, sobre os demais distritos, além da
sede. Uma das funcionárias, demonstrando-se feliz com minha
iniciativa, levou cartão (provisório) do “site” ao titular da
secretaria e lhe falou sobre o que eu desejava. Ele, simplesmente,
respondeu que não podia me receber. Poderia ter pedido à sua
assessoria que agendasse uma data para me ouvir. Mas, o que não
havia era mesmo boa vontade, talvez porque o solicitante fosse
nativo e da “roça”. Para preencher espaço sobre os distritos recorri
a trabalho escolar, realizado por alunos da E.E. D. Pedro II. Se o
solicitante fosse estranho a Ouro Preto, a reação do secretário
teria sido outra.
OL – Outras decepções?
NB
– Mais de uma vez, pessoas me olharam com desdém, quando lhes pedi
informações sobre empreendimentos na área do turismo, para que eu as
inserisse no “site”. Houve quem dissesse: “não me interessa que meu
empreendimento figure na internet”. Certa vez, promotor de evento me
propôs permuta em divulgação: o OURO PRETO WORLD divulgaria o evento
e, em contrapartida, material impresso de divulgação do evento
ostentaria a URL do “site”. O OURO PRETO WORLD cumpriu o acordo, mas
a outra parte nada fez e nem se explicou. O OURO PRETO WORLD oferece
espaço para publicação (a critério do editor) de textos de
terceiros. Poucos são os da terra na grande lista de textos já
publicados. É só conferir. E em lista de “sites” ouropretanos, o
OURO PRETO WORLD não aparece, embora ali se vejam “sites” fora do ar
e de outro município
OL – E quanto ao internauta? Como o “site” é recebido?
NB
– Aí é que está a compensação ao pouco caso dos locais. Além dos
elogios, que não são poucos; recomendações de acesso a terceiros;
propostas de permuta de links, o “site” tem sido fonte de pesquisas
com finalidades diversas. Mediante autorização prévia textos meus
têm sido publicados em jornais e revistas. Outros “sites” também
publicam ou fazem citações a conteúdos do OURO PRETO WORLD. Há pouco
tempo vi blog, por meio do qual dois estudantes franceses dialogavam
sobre trabalho escolar cujo foco era a Myciaria cauliflora (nome
científico da jabuticaba). O curioso é que um deles apontava o OURO
PRETO WORLD como, talvez, boa fonte informação, em razão das fotos,
mas não conseguia identificar o idioma. O outro prometeu pesquisar
e, posteriormente, respondeu ao colega que se tratava da Língua
Portuguesa, concluindo que havia, de fato, boas informações. Pode
parecer estranho que um europeu não consiga identificar o idioma do
seu vizinho. Mas, é assim mesmo, especialmente, o francês, mais
preocupado com o seu próprio umbigo!
OL – Interessante essa curiosidade sobre a prosaica jabuticaba, não
acha?
NB
– Muitas vezes, o que julgamos sem valor, para outros é o contrário.
A página sobre jabuticaba é das que têm despertado maior interesse.
Parece-me ter exagerado nas informações sobre a fruta e isso deixa
transparecer a falsa impressão de que sou especialista agrícola. São
muitas as consultas sobre como cultivar jabuticabeiras. Já recebi
e-mails da China, consultando sobre possibilidade de exportação para
aquele país; não somente da fruta, mas de mudas e sementes também.
Recebo também pedidos de autorização para uso de fotos daquela
página; o último pedido nesse sentido veio da Inglaterra. |
OL – E por que você escolheu a extensão “.jor.br” ao invés de “.com.br”,
como a maioria dos “sites”?
NB
– Por duas razões muito simples. O “ponto com” ainda só era obtido
nos Estados Unidos, mediante o uso de cartão de crédito como meio de
pagamento. Eu não tinha cartão de crédito e o seu uso na internet
ainda era muito perigoso. Quando descobri a extensão “ponto jor”
para jornais, escolhi esta porque o OURO PRETO WORLD é, na verdade,
informativo cultural, portanto perfeitamente enquadrado no grupo.
Até então, poucos “sites” usavam a extensão “ponto jor” e, muitas
vezes, o internauta não conseguia acesso porque, “viciado” no “ponto
com” nem atinava que o “site” tinha extensão diferente.
OL –E como você encara o 10º aniversário do OURO PRETO WORLD?
NB
– Com gostosa sensação de vitória, pois, como disse no início,
informática e internet eram tidas como área exclusiva dos jovens.
Deixei de ser “analfabeto de pai e mãe”, na área citada, por esforço
próprio, depois de ultrapassada a barreira dos sessenta anos de
vida. Com isso, espero ter também prestado um serviço a pessoas da
minha faixa etária que, muitas vezes, se julgam incompetentes apenas
por serem velhos, ou idosos, como queiram. As novas tecnologias não
são excludentes. O que falta aos mais velhos é a visão de que
competência deve ser administrada e desenvolvida, não estando,
portanto, restrita aos mais jovens.
OL – Exponha sua mensagem final.
NB
– Nasci ainda na primeira metade do século passado, quando
ribombavam os canhões, na II Guerrra Mundial - que se alastrava na
Europa - e aprendi grafar as primeiras letras com lápis de pedra
sabão em lousa de ardósia, que ainda guardo. Fui alfabetizado muito
antes de ir à escola por mamãe, entre um e outro trabalho doméstico.
A lousa ela guardara do seu tempo na escola. Na escola aprendi a
usar a pena de molhar, passei pela caneta tinteiro, vi sua
substituição (lamentavelmente) pela esferográfica, usei a máquina de
escrever e cheguei ao computador. Mediante o computador cheguei à
internet, fascinante meio de contato com o mundo. Venho de passado
relativamente distante, mas nele não me prendo, pois encaro o futuro
como se nascido há pouco! Enquanto há vida, há que viver!
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