O poder da oração
Dentre o vozerio no
ônibus lotado destacava-se o diálogo entre duas senhoras, que trocavam
impressões sobre o hábito de rezar, ou de orar como dizem os
evangélicos, cada qual a contar experiências a respeito de resultados
obtidos, segundo elas próprias, por meio da oração. Como na
manipulação do ponteiro do rádio, para escolha de uma preferida entre
as muitas emissoras, concentrei minha atenção naquela conversa, sem
qualquer constrangimento de que estaria a me intrometer na intimidade
alheia. O diálogo era público e as duas não se preocupavam em baixar
o volume da emissão de suas vozes. Em tempo de tanta aflição e
descrença, o assunto não deixa de ser palpitante, especialmente para
os que, como Shakespeare, crêem que "há mais coisas entre o céu
e a terra do sonha nossa vã filosofia", independente de qualquer
crença religiosa e carolice a ela vinculada. O poder da oração (não
confundir com a recitação mecânica de fórmulas) é reconhecido até
por cientistas, havendo estudos que indicam alto índice de resultados
coincidentes com desejos manifestados por devotos em oração,
especialmente em casos relativos à saúde. É interessante observar que
mesmo pessoas desligadas de qualquer prática religiosa, podem obter
resultados positivos ao recorrer a algum tipo de prece em momentos de
aflição.
Lembrei-me de um fato
curioso, cujo desfecho deixou de ser tragédia pelo efeito psicológico
que a oração exerceu num indivíduo. Para preservar a identidade dos
envolvidos chamaremos os dois personagens de "Ouro Preto" e
"Cachoeira". Fica mais fácil para entender que o primeiro
residia em Ouro Preto e o segundo, obviamente, em Cachoeira do Campo. Os
dois haviam se envolvido num negócio, que resultara numa pesada dívida
de "Cachoeira" para com "Ouro Preto". O tempo
passava e "Cachoeira" não conseguia quitar o débito
assumido. "Ouro Preto" tinha seus sonhos de consumo e não se
conformava em tê-los transformados em pó pelo seu devedor. Um dia, o
diabo lhe assoprou que se ele não tinha direito ao usufruto do seu, o
outro não tinha direito à vida. Que então fosse pagar ao diabo nos
quintos do inferno! Concordou com aquele pensamento insano, armou-se com
um revólver nunca saído da gaveta até então, e, partiu para cobrar a
vida em lugar do dinheiro. Era noite e as ruas estavam silenciosas. Em
Cachoeira do Campo de então, nem se imaginava o surgimento de uma
caipirada sobre rodas, que se compraz em perturbar o sossego com
"música" de péssimo gosto em altos decibéis. Por isso, logo
ao entrar na rua onde residia "Cachoeira", "Ouro
Preto" ouviu um murmúrio cadenciado, que só depois de andar
alguns metros identificou como "reza". Mais alguns passos e
ele concluiu que o ofício religioso se realizava na casa do seu
devedor. Mas , ele continuou a andar e se encostou à parede da casa,
sem que ninguém o visse. Na casa do "Cachoeira" estava a
imagem de Nossa Senhora "Visitadora", que percorria toda a
localidade, permanecendo por nove dias em cada lar anfitrião. Era uma
tradição local muito antiga. Mesmo assim "Ouro Preto"
continuou firme em seu propósito, aguardando o fim do ofício
religioso. Quando terminou a novena oficial e os devotos passaram a
fazer as rogações pessoais, ouviu-se a voz do "Cachoeira":
"uma ave-maria para o meu amigo 'Ouro Preto', a quem devo favores,
acrescido do fato de ele ser generoso e compreensivo para comigo nestes
momentos de dificuldades".
Ao ouvir aquela
súplica religiosa em seu favor, "Ouro Preto" desejou ter o
poder de desaparecer instantaneamente. Mais uma vez a sorte o ajudou e
saiu dali do mesmo jeito que chegara; sem que ninguém o visse. Se não
foi o poder da oração, foi uma coincidência providencial!