Orgulho e soberba em campo
oposto
Vindo logo após a morte do
papa João Paulo II, a semana passada foi plena de fatos destacados
da rotina, enquanto os olhos do mundo se voltavam para Roma, num
misto de curiosidade, pesar e homenagem àquele que soube conquistar
simpatias. Até quem há mais de quarenta anos não entrava numa
igreja, por seguir a linha do líder que dizia "a religião é o ópio
do povo", assistiu a rito solene em memória do papa e lhe dedicou
mensagem de admiração e respeito. Estadistas de todas as tendências
políticas, mesmo inimigos entre si, dignitários de outras corrente
religiosas, crédulos, incrédulos, todos somados, lado a lado num
lance de boa vontade, verdadeiro ou falso, certos, porém, os
dividendos por estarem no local e momentos oportunos. Sendo
propícios esses momentos às fraquezas ditadas pela vaidade e pelo
orgulho, ainda que a memória do célebre morto não recomende, pois
que voltada à caridade e tolerância sua vida esteve, palavras
ásperas e de presunção atropelaram a humildade que deveria
prevalecer em respeito, nem que aparente, ao finado.
As declarações de um
prelado com referência à religiosidade do presidente da República
não condisseram com o momento e não condizem com a posição de quem
as emitiu, além de não produzirem nada mais que mal-estar. Contudo,
julgamento justo do autor das declarações só seria possível, se
transparentes as circunstâncias em que se deu o episódio. No
primeiro momento, parte da imprensa dizia que foram feitas em nota
escrita – o que seria mais lamentável – outra afirmava que foram
ditas verbalmente em entrevista. Admitida a segunda hipótese – mais
provável e confirmada posteriormente - seria preciso conhecer melhor
como se deu a abordagem, pois o arcebispo não emitiria qualquer
opinião naquele sentido, se não provocado. Como qualquer setor, em
comunicação há profissionais zelosos, atentos aos fatos e à verdade,
mas há também os que se dedicam à "produção" de notícias, não lhes
importando as conseqüências de suas investidas por meio de
entrevistas intempestivas. E parece ter sido isso que aconteceu num
misto infeliz de pergunta e sugestão formuladas no tumulto do
desembarque em Roma, quando mais frágil estaria o estado psicológico
do abordado, em razão dos últimos acontecimentos, que afetam o
mundo, a igreja e, de forma mais direta, cada um dos membros do
colégio de cardeais. A pergunta-sugestão sobre possível eleição de
um papa brasileiro, fazendo-se comparação com a origem e eleição do
atual presidente da República, não tinha razão de ser, pois são dois
fatos distintos, dessemelhantes, levados a efeito por métodos
diversos e com propósitos, que não se comparam.
Enquanto da parte do
Brasil o quase bate-boca entre autoridades, civil e religiosa,
esquentava páginas de jornais, da parte norte-americana passou
despercebido episódio que retrata o complexo de superioridade
norte-americano. Quase a mesma pergunta, sem a infeliz comparação,
feita ao arcebispo de Washington teve resposta tranqüila, mas eivada
de tanta soberba que mais parece ter saído da boca do próprio
presidente de seu país. Algumas notas dizem que o arcebispo disse
"não acho que a igreja esteja preparada para um papa
norte-americano", enquanto outras,
"não acho que o mundo esteja preparado para um papa
norte-americano".
Tenha dito igreja, ou
mundo, sua presunção foi longe demais! Em ambos os episódios, as
reações não nos parecem afinadas com a humildade pregada pela Igreja
e praticada pelo papa João Paulo II.