Ouro Preto, reino das
picuinhas!
Em pleno século vinte e
um, sob o domínio da tecnologia que tudo facilita, atualizando
conhecimentos, desenvolvendo potencialidades, antecipando
possibilidades, vemos Ouro Preto a lutar no escuro como se, a
exemplo do seu acervo material congelado no tempo de seu surgimento,
também suas forças de liderança estivessem presas ao passado,
impedidas de exercer o pensamento atualizado, e, conseqüentemente,
decidir de acordo com as necessidades do momento, no plano
individual e coletivo. Assim temos disputas políticas que, se não a
ferro e fogo do colonizador e aventureiros movidos pela febre do
ouro no seu tempo, primam por querelas que, longe da busca pela
satisfação da coletividade, acirram divergências pessoais e de
grupos como no jogo cabo-de-guerra. Desgastam-se e perdem
credibilidade junto à coletividade os grupos políticos, que teriam a
missão de, ouvindo a sociedade, apresentar propostas e viabilizá-las
junto aos governos.
Em outras comunas, os
contrários se atraem com lideranças de correntes diversas postadas
de frente, para discutir diferenças em torno de projetos. Ao fim,
resolvem de maneira convergente em favor da coletividade! No
município de Ouro Preto, os políticos se postam de costas em torno
de idéias, brigam e, quando decidem, o fazem em desfavor de todos!
Nos últimos dias, grande
forrobodó se produziu da degradação das obras de arte da chamada
"Estrada Real" (ligação entre Ouro Preto e Ouro Branco) e sua
conseqüente interdição. Não podia desaguar em outro oceano, que não
o do impasse desastroso, o rio de picuinhas, pirraças e exibição
vaidosa em que navegou aquela obra. À primeira menção sobre sua
reabertura mediante recapeamento asfáltico, vozes se levantaram com
objeções calcadas no argumento de que atrairia operários da
siderúrgica instalada em Ouro Branco e estimularia surgimento de
favelas nos limites da cidade de Ouro Preto. Vencida a odiosa
discriminação, a estrada foi asfaltada e entregue ao tráfego
ordinário, embora seu traçado não tenha sido adequado ao exigido por
veículos longos e pesados. Nenhum estudo prévio se fez quanto ao
impacto sobre as obras de arte do antigo caminho. Do princípio ao
fim, discussão da idéia e execução da obra se fizeram por meio de
guerra de picuinhas e vaidades! Deu no que deu e o povo foi quem
perdeu!
Nem precisa ser técnico
para saber que pontes e bueiros da estrada, originalmente aberta
para carruagens e carroças, seriam prejudicados por veículos mais
pesados, não sendo tanto por automóveis, porque antigos construtores
executavam as obras com grande margem de eficiência e segurança.
Mas, o bom senso foi vencido pela mesquinharia da política
ouropretana! E a politicalha continua, à vista das eleições do
próximo ano, valendo-se os oportunistas para lançamento da culpa
sobre quem, não isento de outros pecados, nada tem a ver com este.
Quanto à estrada fala-se em sua adequação mediante pontes paralelas
às antigas, para se manter o erro do tráfego pesado onde deveria ser
exclusivo para veículos leves.
O que Ouro Preto deveria
sugerir ao DER como alternativa ao tráfego pesado é a adequação da
estrada que liga o município de Ouro Branco a Cachoeira do
Campo/Ouro Preto, o que atenderia interesses da siderúrgica com
instalações em Ouro Branco e Miguel Burnier/Ouro Preto, bem como
beneficiaria as populações daquele distrito e de Engenheiro
Corrêa/Ouro Preto, comunidades duramente isoladas da sede municipal.
Há muito tempo, quando convém aos políticos em captação de votos,
fala-se no asfaltamento dessa estrada, mas quando surge o melhor
momento para levar adiante a idéia, palradores se calam. Isso prova
que todos falam da boca pra fora quando estão em jogo interesses
coletivos.