|
A
casa onde moro atualmente foi construída pelo meu pai, antes mesmo de eu
nascer. “Seu” João Braga era um homem de pouco estudo, mas uma
inteligência privilegiada e uma visão de mundo muito além da sua
geração. Um homem à frente do seu tempo.
Quando nasceu a primeira filha, disse à minha mãe que queria construir
“uma casinha para cada filho”. Comprou um amplo terreno, na periferia,
em um local conhecido como “fim de linha” de tão longe que era, e
começou. Em uma época onde não existiam casas de material de construção,
sacos de cimentos, a areia era tirada dos “areais” que existiam nas
redondezas. Azulejo? Piso? Isso eram coisas de capital, para onde ir,
aliás, era uma viagem. As construções por aqui eram na base do chão de
cimento ou tacos colocados um a um, com martelo e pregos. E foi assim
que, carregando tijolos e telhas nas costas ou em carrinhos de mão, o
meu pai seguiu o seu intento.
Morreu aos 52 anos, deixando viúva com 44, sete filhos e as sonhadas
“casinhas” prontas. Passado o choque (se é que ele passa algum dia), a
minha mãe, mulher muito prática e honesta, tomou todas as providências
legais. Eu, a filha mais nova, pirralha na época, não entendia nada. Via
aqueles senhores de terno em minha casa, ouvia palavras como
“inventário”, “formal de partilha”, “usufruto”, e continuava no meu
canto, com as minhas bonecas, sem a menor noção do que significava tudo
aquilo. Era tão menina, que nem tive tempo de sentir a morte do meu pai,
porque não tive tempo de conhecê-lo. Deus quis assim, por razões que só
a Ele cabe entender.
Mas o tempo é inexorável. Foi passando e, junto, a esposa envelhecendo e
os filhos crescendo. Cada um seguiu o seu destino, levando a vida com
dignidade e honra, heranças muito mais importantes do que as sonhadas
“casinhas” do meu pai.
Terminei o segundo grau em uma época em que formar-se na então ETFOP era
sinônimo de emprego garantido. À ocasião, a escola só tinha dois cursos,
mineração e metalurgia. Formei-me em metalurgia, ainda bem jovem, e
assim que tive o diploma em mãos, surgiram três oportunidades de
emprego, com salários excelentes para a época. Todos fora de Ouro Preto.
Contrariando família, professores e amigos, rejeitei os três. Eu sempre
soube que o meu destino estava nesta cidade. Sempre soube, e nunca pude
explicar como, que o meu lugar é aqui. Aqui eu nasci e aqui quero
morrer, com os pés firmes no chão e a alma voando pelas ladeiras e
escadarias, onde não sei quantas vidas já vivi.
Mas o tempo… ah, o tempo… como este danadinho voa, e um dia apanhou-me
já adulta, vida feita, realizada na medida do possível mas ainda com
muito a realizar, em minha cidade, ao contrário dos meus irmãos que
escolheram outros caminhos, e feliz por ter feito a escolha certa.
A
casinha que o meu pai construiu com tanto sacrifício já não era mais
aquela casinha de chão de cimento e portas e janelas de tábuas, por ele
construídas uma a uma. Ah, o tempo… eu já sabia o que era inventário,
formal de partilha e usufruto, e já entendia todo o sacrifício dos meus
pais.
Por escolha arrumei o meu cantinho, simples mas que eu amo, que é meu, o
meu porto seguro, a minha casa, para onde sempre volto, o lugar que eu
chamo de lar.
Aos poucos vou reformando aqui e ali, devagar porque a maré não está
para peixe para ninguém. O “amplo terreno” que o meu pai comprou há mais
de cinqüenta anos pertence hoje a um bairro com mais de 4.000
habitantes, e onde havia meia dúzia de famílias hoje temos
supermercados, farmácias, açougues, casas grandes, casas pequenas,
famílias grandes, famílias pequenas, crianças, jovens, adultos, idosos.
O “fim de linha” tem pontos de ônibus para todos os demais bairros da
cidade e ficou perto de tudo.
Neste lugar construí a minha vida, com sacrifício, suor, e a maravilhosa
sensação de que “nada cai do céu”. Orgulho-me das dificuldades e dos
sacrifícios, porque eles me fortaleceram e me fizeram quem eu sou.
Um dia chego em casa, me deparo com pessoas fotografando, carros
oficiais na porta, e recebo um documento onde sou informada que a minha
casa, a que estou reformando, a mesma que “seu” João Braga construiu
carregando tijolos e fazendo ligas de barro, é “tombada” e eu preciso
fazer isso e aquilo, e procurar fulano e sicrano…
Mais: mesmo com toda a documentação, tudo regularizado há décadas,
preciso de “projeto” (detalhe: caríssimo) para mexer no que é meu.
Como assim? A minha cidade enlouqueceu? A Ouro Preto onde eu escolhi
ficar, quando todos foram para “uma vida melhor”, a casa que o suor do
meu pai construiu e o meu melhorou é “tombada”? O bairro inteiro é
“tombado”? Enlouqueceram todos?
Não sou a única. 90% da população pobre de Ouro Preto (importante frisar
o “pobre”) já passou ou passa por isso. Viramos reféns de órgãos
oficiais. Calma aí, gente! Não é por aí, não pode ser.
Sou a primeira não só a concordar, como também apoiar o trabalho de
preservação de um acervo tão rico como a nossa querida Vila Rica.
Sou a primeira a concordar, apoiar e se possível até ajudar, no que
puder, para que não haja “crescimento desordenado” na cidade. Mas que
haja parcimônia e bom senso. Não é com arrogância e sem critérios, ou
com dois pesos e duas medidas, que a situação vai melhorar.
|
Vejo com tristeza igrejas literalmente ruindo no centro histórico, vejo
hotéis, pousadas, prédios onde funcionam órgãos públicos cada vez mais
modernos, vejo placas moderníssimas pelo centro todo, e a minha casa,
construída há mais de cinquenta anos, na periferia onde só havia mato,
precisa de tanta burocracia para uma reforma?
E
se não posso reformar, devo deixar como estava, até cair? Deveria estar
até hoje no chão de cimento e janelas pregadas com tábuas (com o maior
orgulho do meu pai, que fez o que havia para fazer, na época). Não posso
progredir, crescer, com o suor do meu trabalho digno?
Pelo amor de Deus! Que autoritarismo é esse que permite “vistoria de
rotina” no que é meu de direito? Nenhum órgão público me deu nada, não.
Nenhum órgão público me ajudou com uma telha sequer. Quem “tombou” a
minha casa, a minha rua, o meu bairro? Uma Lei de 1938, quando eles
ainda não existiam?
Que seja, então, mas essa lei nos protege também ou só nos cobra? Essa
lei pode fazer alguma coisa quando o desgaste natural do tempo me obriga
a trocar telhas ou reforçar a madeira da porta, que, exposta diariamente
a chuva e sol, uma hora precisa ser trocada ou reformada? Essa lei ajuda
a mim e a meus vizinhos, quando, em uma enxurrada das chuvas de final de
ano, a água entra dentro de casa e precisamos dar aquela faxina depois?
Ou essa lei tem por objetivo acatar “denúncias” e incomodar
trabalhadores honestos e cumpridores de seus deveres?
Que lei é essa que dá o direito a estranhos (por mais “autoridades” que
sejam, são estranhos) de saírem “vistoriando” a esmo, de acordo com o
seu bel prazer?
Tudo o que eu quero, e centenas de ouro-pretanos que se identificam
comigo, é, com honestidade, dignidade e muito trabalho, melhorarmos o
quanto pudermos o nosso lar. Talvez seja difícil para pessoas que veem e
vão, e têm o seu lar em outra cidade, sendo Ouro Preto apenas o seu
local de trabalho, entenderem isso. Mas nós que aqui nascemos, vivemos e
mantemos a cidade viva, queremos o mínimo de conforto e liberdade dentro
dela. Nós sabemos muito bem a diferença entre uma casa e um lar.
Uma casa são paredes, madeira, telhas… um lar é o nosso templo. É onde
fomos criados ou criamos nossos filhos. No meu caso específico e de
alguns vizinhos, são três, quatro gerações, de famílias que chegaram em
um matagal e literalmente o desbravaram, quando essas autoridades, sem
generalizar, sequer pensavam em nascer.
Eles também têm o seu lar. Mas não é aqui. Veem Ouro Preto como um lindo
quadro na parede de suas casas. Para eles, repito, sem generalizar,
somos um pontinho em um mapa que está “destoando do Patrimônio
Histórico”, que eles podem impedir de crescer e melhorar a qualidade de
vida.
Entendo que deva ser difícil para essas pessoas, que têm Ouro Preto como
o seu sustento para depois voltarem prá casa, para o seu lar, entenderem
isso. Chegam, colocam um mapa enorme em uma mesa redonda nos seus
escritórios e deliberam. O problema é que nós não somos um pontinho em
um croqui. Cada um desses pontinhos representa famílias inteiras. Nós
somos gente, e o nosso lar é aqui.
Não estou falando em desrespeitar lei nenhuma. Pelo contrário, quero
agir como sempre dentro da mesma, assim como tenho certeza as centenas
de pessoas a quem me referi. Não somos marginais. Não somos bandidos.
Somos cidadãos. É óbvio que eu quero reformar a minha casa dentro dos
padrões para que ela não destoe do acervo da cidade. Mas ela já existe,
pelo amor de Deus! Não estou construindo nada. Peço respeito à memória
não apenas do meu pai, mas de todos aqueles da sua geração, que andaram
no lombo de cavalos pela serra acima onde hoje é um bairro de mais 4.000
habitantes, apanhando barro com as mãos, fazendo ligas para unir tijolos
que sinceramente nem eu sei onde ele conseguia.
O
meu pai e um ou dois vizinhos, de sua geração, iniciaram este bairro.
Repito, não havia nada, só mato. Entendidos e autoridades hão de dizer
que o tombamento era da área e usar argumentos legais. Não nego nenhum.
O que eu nego é o bom senso. Quando o terreno foi vendido e as
construções feitas, quem sabia disso? Meia dúzia de famílias de gente
humilde, levantando as suas paredes, não tinham sequer idéia desse
assunto.
Então o bairro inteiro está errado agora, porque resolveram ‘vistoriar”?
Que fique claro, não sou contra a vistoria. Mas não aceito, não permito
e não admito arrogância e nem desrespeito com o que foi construído com
muito suor e dignidade.
Ninguém me deu de graça. Ninguém tem o direito de me impor o que fazer.
Claro que eu não vou reformar a minha casa modificando a sua estrutura,
tudo o que eu e todos os ouro-pretanos queremos é mais respeito ao que é
nosso. Se alguém, alguma lei, algum órgão, seja o que for, resolveu
“tombar” a cidade inteira, então que este alguém, ou lei, ou órgão nos
dê condição digna de moradia. Serei a primeira a apoiar.
Mas não me venham, por favor, após mais de quarenta anos morando,
vivendo, produzindo no mesmo endereço, fazerem “vistoria” na minha
porta, sem o meu conhecimento, fotografando e invadindo a minha
privacidade, como “rotina”.
Eu não mereço isso. Meu pai não merece isso. Meus vizinhos não merecem
isso. Meu bairro não merece isso. OURO PRETO NÃO MERECE ISSO.
|