PONTO DE VISTA DO BATISTA

Ouropretanos divididos desde o início

Segundo relato de pessoas que ainda viveram resquícios das antigas divergências, muitas brigas e escaramuças aconteciam quando grupos cruzavam a "fronteira". Um cachoeirense me contou que, certa vez, quando ainda menino e ia a Ouro Preto com seu pai para entregar encomendas de ovos, foi barrado por um grupo de garotos perto da igreja de Nossa Senhora da Conceição, por suporem que ele fosse "mocotó". Salvou-o da surra e do prejuízo dos ovos quebrados, um morador que assistiu à cena da janela e lhe deu proteção. Ainda alcancei as célebres escaramuças entre alunos dos dois internatos então existentes em Ouro Preto: o Colégio Arquidiocesano, também chamado "Colégio de Cima", localizado no bairro das Cabeças/paróquia do Pilar e o Colégio Alfredo Baeta, chamado "Colégio de Baixo", localizado no bairro Antônio Dias, embora seus proprietários residissem no lado do Pilar. Até nesse caso específico, o fator sócio-econômico era a determinante, além da localização em lados opostos. Os filhos da elite estudavam no Arquidiocesano, e os da pobreza, no Alfredo Baeta.

Entretanto é nos monumentos religiosos de Ouro Preto que se lêem vestígios de uma luta muito mais renhida, embora silenciosa por óbvias razões, travada entre as ordens e irmandades de ambas as freguesias. Ao observador atento salta aos olhos, primeiramente, que os templos religiosos ficaram divididos de forma equânime, entre o Antônio Dias e o Pilar. A cada igreja numa paróquia corresponde outra de denominação similar ou aproximada, na paróquia oposta. Comecemos com as duas edificadas nos extremos da cidade: Senhor Bom Jesus de Matosinhos/Pilar e Senhor Bom Jesus das Flores/Antônio Dias; Nossa Senhora do Rosário/Pilar e Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia/Antônio Dias; São Francisco de Paula/Pilar e São Francisco de Assis/Antônio Dias; Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia/Pilar e Nossa Senhora das Mercês e Perdões/Antônio Dias. As demais não apresentam denominações correspondentes, mas completam o equilíbrio entre as paróquias: Nossa Senhora do Carmo/Pilar e Nossa Senhora das Dores/Antônio Dias; São José/Pilar e Padre Faria/Antônio Dias, além das matrizes de Nossa Senhora do Pilar/Pilar e Nossa Senhora da Conceição/Antônio Dias. São exatamente sete igrejas em cada freguesia ou paróquia.

Coincidência? Quatro delas formam pares com denominações correspondentes no outro lado. Mais coincidências? É difícil de acreditar. Note-se que nas duas primeiras igrejas da relação acima (Senhor Bom Jesus do Matosinhos e Senhor Bom Jesus das Flores) há similaridade até na localização. A de Matosinhos é a que está mais próxima à chegada de quem procede de Belo Horizonte, e a do Taquaral, de quem vem de Mariana. Uma vigia o extremo oeste e a outra o extremo leste da cidade. Tudo indica que uma ferrenha disputa ocorreu entre as irmandades na época daquelas construções religiosas, mas o assunto não é tratado em público. A pujança e a riqueza de detalhes manifestadas em cada igreja também denotam preocupação de cada confraria em mostrar algo mais e diferente de suas congêneres. Por trás de tanta arte e mostra de religiosidade podem estar sentimentos menos nobres que, muitas vezes se traduziam em agressividade entre grupos de lados opostos da cidade.

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