PONTO DE VISTA DO BATISTA

Palavras com endereço errado

"Palavras são palavras, nada mais do que palavras" era o bordão de personagem embromador de antigo programa humorístico do rádio, talvez inspirado no código de ética, em pleno vigor, de muitos políticos desses que povoam páginas e telinhas com muita conversa mole p’ra boi dormir. É também o lema dos que nenhum compromisso têm além do estabelecido consigo e para si próprios, não lhes importando, como diz o matuto, "se a água corre para baixo ou para cima".

Perigosamente, o conceito tende a se entranhar em textos com o emprego de vocábulos, aparentemente apropriados, porém com significados em desconformidade com o que se pretende dizer.

Ao longo do tempo, "através", que tem o sentido de atravessar ou cruzar barreiras e espaços, podendo em alguns casos ser usado em sentido figurado, caiu no gosto dos descomprometidos com a linguagem. Assim é que as expressões "por meio de" e "por intermédio de" são colocadas de lado, passando tudo a atravessar qualquer coisa. Novos falantes da língua, lá fora, devem ficar assustados diante de narrativas em que, por exemplo, objetos de qualquer natureza são encaminhados, transferidos, repassados ou entregues "através" de pessoas, ou seja, atravessando seus corpos. E tudo indica que assim continuará ou, pior, porque o massacre da língua tende a se ampliar, alcançando outras palavras e expressões. E a bola da vez é o verbo "confeccionar".

Não sei se devido à projeção da indústria da confecção no mercado, o fato é que, de repente, há gente a confeccionar boletins de ocorrência, "releases", notas fiscais, relatórios e não sei mais o quê em cima do papel. Confecção é o ato de fabricar roupas de modo geral, adornos e adereços, podendo ainda, mas, raramente, ser a palavra empregada no sentido de fazer doces, bolos, bebidas e preparar medicamentos. Para doces, bolos e assemelhados o mais indicado é confeição, da qual derivam confeito, confeiteira, confeitaria, bem como os verbos confeiçoar e confeitar. Produz-se qualquer texto sobre papel em branco, escrevendo ou redigindo. Quanto à complementação de documentos parcialmente prontos, como notas fiscais, boletins de ocorrência, relatórios, fichas e alguns tipos de relatório, o correto é preencher.

Isoladamente, palavras têm um sentido, associadas a outras, podem ter significado diverso e, na estrutura de uma narrativa, chegam a dar sentido divergente da idéia original. Casa é abrigo, segurança, garantia de privacidade e suporte físico ao exercício da cidadania, direito do qual muitos estão excluídos. Lar, originalmente, local da casa onde se reunia a família em volta do fogo, hoje é o ambiente familiar, a organização e o aconchego domésticos, condições faltantes a tantas crianças, nas ruas, ou debaixo do teto, porém sob o jugo da desestrutura familiar. Cada qual representa um bem inestimável para a pessoa humana, e, as duas associadas são como corpo e alma na manifestação da vida, razão pela qual a instituição CASA LAR representa a redenção da dignidade para muitas crianças marcadas pela desventura. O aconchego fraterno na segurança do mesmo teto é o mínimo de que a criança necessita para se sentir amada e aprender a corresponder aos impulsos benéficos do calor humano.

E creio ter sido esta a intenção de quem juntou as duas palavras, como expressão de amor aos pequeninos. Entretanto, quem viu o amor na expressão isolada, não viu sua inconveniência no contexto de narrativas orais, onde inocência e objetivos de CASA LAR se invertem e sugerem simplesmente corrupção de menores.

nbatista@uai.com.br

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