Quando se pensa ter visto
tudo, especialmente no que toca à (i)responsabilidade na
administração pública, lá vem insanidade maior que, em pouco tempo,
se torna menor diante de outras mais à frente. No início do ano, por
todo o país pipocaram "greves" de prefeituras, para forçar o governo
federal na liberação de mais recursos do Fundo de Participação dos
Municípios-FPM. Em Minas, a paralisação seria em abril, mas foram
poucas as que aderiram à estultice, porque fechar as portas da
administração municipal diante de eventuais dificuldades seria
confissão de incompetência, o que a maioria dos prefeitos mineiros,
obviamente, não quis fazer. À ocasião, defensores da paralisação
argumentavam que se tratava de protesto contra o governo federal,
mas disso quem tem direito é o povo. Mandatários têm é que cumprir o
mandato recebido, nas urnas, por meio do voto popular e, para isso,
são muito bem pagos.
Em relação à pretendida
paralisação, foi dito aqui que os prefeitos tinham sido eleitos para
administrar, em quaisquer circunstâncias, quesito respondido
afirmativamente quando assumiram suas candidaturas e pelo qual
mereceram a confiança do povo, confirmada nas urnas. O que se
esperava deles era trabalho redobrado, proporcional ao sacrifício
exigido dos trabalhadores, salvos da crise mediante mais
sacrifícios, para cobrir a falta dos dispensados; que soubessem
empregar a inteligência na readequação da estrutura administrativa à
nova situação, pois era isso que o povo esperava naquele momento. Se
fosse para empacar diante de dificuldades, qualquer cidadão poderia
ser prefeito porque, de cruzar os braços, qualquer um é capaz!
Passada aquela fase e
deixada de lado a esdrúxula "greve", eis que nova e pior investida é
sugerida, não contra o governo, porém contra um dos princípios do
regime democrático, ou seja, contra as eleições do próximo ano.
Da presidência da União
Brasileira de Municípios-UBAM parte a iniciativa, levada aos
prefeitos, para que estes boicotem as próximas eleições, deixando de
votar; isso para demonstrar insatisfação com a política do governo
da União, no que tange às administrações municipais. Ora, esta ainda
não é a democracia ideal, mas pode ser o caminho para ela e, como
caminho para democracia mais ampla, não pode ser torpedeado,
principalmente pelos que dele se valeram para ocupar os cargos que
ocupam.
Deste espaço, defende-se a
democracia aberta, ou seja, diretamente apoiada na sociedade
organizada, sem interveniência de partidos políticos, e, como meio
de alcançar este ideal, prega-se o voto nulo consciente. Deixar de
votar, nunca! No mínimo, a recomendação, que se diz já ter sido
endereçada aos prefeitos de todo o Brasil, é antiética! Na hora de
se elegerem presidente da República, governadores, parlamentares
federais e estaduais torpedeia-se o mesmo meio pelo qual eles,
prefeitos, se elegeram e, em muitos casos, desejarão reeleição. Mas,
não é só isso. Trata-se de agressão ao princípio democrático, até
aqui só perpetrada por aqueles que desejam implantar seu oposto,
configurado em regimes totalitários.
Goste ou não da política
posta em prática pelo governo federal e/ou estadual, tenha ou não
dificuldades para gerir seu município, cabe a cada prefeito zelar
pela manutenção dos princípios democráticos e trabalhar pelo
aperfeiçoamento da democracia, além de cumprir as tarefas inerentes
ao cargo de prefeito.
Assim como no casamento,
ao assumir a administração municipal, cada qual deve estar
consciente de que o exercício do cargo não é só beijos e flores,
pois há também peidos e dores.