Papai Noel corrupto
Definido, porém não escrito,
o tema desta edição versaria sobre o polêmico horário de verão, que
se pensava não ser reeditado pelo novo governo, depois de tantas
denúncias sobre seus malefícios à saúde. Como saúde é o que menos
o povo tem em troca de brutal carga tributária, incluindo-se a CPMF,
dita provisória, mas permanente, combatida antes e agora defendida pelo
PT, o horário de verão continua, dizem, que para economizar, enquanto
na outra ponta se mostra o consumo perdulário de energia nas
decorações luminosas desta época do ano. A troca do tema foi motivada
por um anúncio na televisão.
Antes da era cristã, em 25 de
dezembro se celebrava o nascimento do deus Mitras (deus sol) dos persas.
A data foi cristianizada, assim como outros costumes e comemorações
pagãs, quando se sentiu necessidade de se fixar o dia para
comemoração do nascimento de Jesus. O cristianismo consolidou-se e se
espalhou pelo mundo. O Natal se transformou na grande festa da família
e da cristandade, guardando sua pureza durante quase dois mil anos, até
que viram nele a grande chance de negócios. Paganizou-se novamente o
Natal, desta vez em favor do deus dinheiro. Fechou-se então o ciclo
iniciado com o deus Mitras.
Tudo começou com a
encampação da figura do Papai-Noel, símbolo natalino nascido da
bondade do bispo Nicolau (São Nicolau) que repartiu o que possuía
antes de se dedicar à vida religiosa e, segundo versão de uma das
muitas lendas que o cercam, distribuía brinquedos às crianças pobres
por ocasião do Natal. Por muitos anos, a partir da lenda em torno de
São Nicolau, Papai-Noel povoou a imaginação infantil como alguém que
distribuía presentes na calada da noite de Natal, sem que existisse
para ele uma figura concreta. Somente mais tarde começaram a surgir
algumas imagens do Papai-Noel, no início sob a forma de duende,
evoluindo até chegar à forma do atual velhinho gordo e vestido de
vermelho. Além de distribuidor de brinquedos, a Papai-Noel se
atribuíam mensagens educativas que encorajavam as crianças ao bom
comportamento, assim como o Natal era festa religiosa somada à reunião
da família em torno da consoada - a ceia de Natal - na véspera do dia
25 de dezembro. Na consoada não se comia carne, porque no dia 24 se
praticava o jejum com abstinência de carne, e, os presentes, quase
sempre brinquedos, se restringiam às crianças. A grande deturpação
da festa teve início quando fizeram do Papai-Noel, já sob a forma do
velhinho, um símbolo de consumo ao qual as pessoas são induzidas para
se presentearem. E a ceia frugal, com destaque para o bacalhau e doces
de todos os tipos que as famílias trocavam entre si, foi substituída
por verdadeira glutonaria, regada a bebedeira.
Entretanto, o que pensava ser
o fundo do poço no qual a festa do Natal despencou, constatei não
corresponder à verdade, pois há quem baixe ainda mais o nível da
degradação. É triste constatar a falta de escrúpulos, de ética, de
bom senso e de consideração, na área da propaganda, para vender
produtos ou a imagem de uma empresa, sobretudo quando se valem de
símbolos culturais, universais e consagrados. Mesmo não correspondendo
ao original inspirado na figura de São Nicolau, o Papai-Noel continuava
a ser portador de mensagem feliz, fraterna e, por isso, respeitosa e
honesta. Digo continuava, porque uma operadora de telefonia celular
entendeu de reeditá-lo à imagem do corrupto, um dos mais torpes tipos
dentro da sociedade humana. Fiquei estarrecido ao ver o comercial em que
"Papai-Noel" coloca vários presentes debaixo de uma árvore
de natal, mas se apropria de um aparelho da marca anunciada, colocando-o
no bolso do casaco, depois de olhar em torno e ter certeza de que não
estava sob observação de terceiros. No país dos
"gafanhotos" nem Papai-Noel resiste à tentação da
apropriação indébita. É a mensagem de Natal de uma empresa de
telefonia. E querem fazer do Brasil um país sério!