PONTO DE VISTA DO BATISTA

Paradoxos sobre rodas

Paradoxo maior não poderiam as cidades estar a vivenciar, tendo as ruas atulhadas de veículos cuja invenção teve como motivo a busca de independência, rapidez e conforto do indivíduo em sua locomoção. O que se criou com o propósito de facilitar é o hoje o maior estorvo na vida dos cidadãos, que chegam a ficar retidos no trânsito até metade do que é a jornada de trabalho. E para resolver o problema ou, pelo menos, minimizá-lo, o que se faz é exigir mais sacrifícios do cidadão, que acaba por pagar em dobro pela falta de eficiente transporte público. Restrições ao uso do veículo próprio e maior rigor na fiscalização do trânsito deveriam ser concomitantes à existência de sistema de transporte coletivo à altura das necessidades da população, mas a penalização do transporte individualizado vem à parte de qualquer ação concreta para a solução em nível coletivo, sem esquecer que o proprietário do veículo é induzido à sua aquisição a partir da instalação da montadora.

Toda uma estrutura de marketing trabalha pró-aceitação do produto no mercado, enquanto, em relação ao mesmo, a área governamental mantém igual expectativa de arrecadação de tributos. Seria de se esperar que parte dessa arrecadação se voltasse para a garantia da circulação do veículo, preservando-se assim os direitos do adquirente, sem prejuízo de ações práticas que visem à satisfação no nível coletivo. Entretanto, o que aguarda o usuário do transporte individualizado são impostos escorchantes e uma verdadeira indústria de multas, operada mais ou menos de acordo com as necessidades de caixa da administração pública, em meio às enervantes retenções no trânsito. E o dependente do transporte coletivo continua nas filas por horas até se ver espremido como carne em embutidos (lingüiças e similares) vendidos nos açougues. Animais têm transporte mais condizente!

De paradoxo em paradoxo esbarra-se na potência do motor, que sai de fábrica com capacidade de imprimir velocidade muito acima da permitida por lei e impraticável nas condições oferecidas pelas rodovias. Seria mais lógico o veículo ter velocidade pouco maior que a máxima permitida e se concentrassem esforços na segurança dos ocupantes, como por exemplo, dispositivo eletrônico que force redução automática da velocidade diante de obstáculo à frente.

O atual estágio de desenvolvimento tecnológico já permite controle externo da velocidade do veículo, o que eliminaria radares e outras engenhocas criadas para flagrar o infrator e multá-lo, além de alimentar cabide de empregos e fomentar a corrupção. Também desapareceriam os famigerados quebra-molas, castigo para os bons condutores e nada impeditivos aos excessos dos maus. Aliás, a mania dos quebra-molas se converteu em símbolo de status; todos a querer um instalado perto de sua casa. É sinal de influência!Até na zona rural, em caminhos de cabrito, onde buracos são redutores naturais, já são comuns os ressaltos em terra batida. Só mesmo neste país grande, bobo e dominado por safados!

Dispositivos eletrônicos instalados em ruas e rodovias acionariam seu correspondente instalado no veículo, e este passaria a rodar na velocidade permitida naquele local. Mas interesse não há em tal controle, enquanto se puder tomar mais dinheiro dos incautos sob a forma de multas, geradas por meios eletrônicos ou cobradas pelo guarda escondido atrás de árvores. Creio que a criação de tal controle só se concretizará quando houver surto de bom senso entre fabricantes de veículos e autoridades do trânsito (inteligentes eles são), uns a fabricar veículos dotados de mais recursos de segurança e de acordo com a velocidade máxima permitida e outros a controlar de fato o trânsito, sem o viés "tô de olho e te ferro".

Por enquanto, "tamo na mão de calango"!

nbatista@uai.com.br

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