PONTO DE VISTA DO
BATISTA
Paradoxos do progresso
Vivemos cada vez mais
num mundo de paradoxos à medida que avançamos no campo das
facilidades, do menor esforço. De tanto simplificar, acabamos criando
mais empecilhos e mais dificuldades. Vejamos o caso do automóvel, por
exemplo. Criado para comodidade e rapidez na locomoção de pessoas,
tornou-se fator de lentidão do trânsito nas cidades. Comodidade e
rapidez deixaram de existir no momento em que o uso do automóvel
alcançou usuários em número suficiente para superlotar espaços nas
vias de trânsito. Embora ainda não se saiba a verdadeira causa do
recente "apagão" nos Estados Unidos, pode-se inferir que o
caos dele derivado é outro paradoxo, porque o homem, dito civilizado,
já não sabe viver sem a tecnologia, em princípio, nascida da
eletricidade que, por sua vez, desembocou na eletrônica e na
informática às quais o funcionamento da criação humana está
subordinado. A televisão mostrou como a massa humana, desnorteada pela
ausência de serviços que a orientasse, transportasse e até
alimentasse, comportou-se como formigas em correição, tudo produzido
pela extrema dependência da eletricidade.
Em meio a tantos
reflexos da prolongada crise, que agora recrudesce com mais desemprego,
queda nas vendas e adiamento do início do "espetáculo do
crescimento", diz-se que se avoluma a emissão de cheques sem
fundos. Assim como a violência é convenientemente atribuída à
pobreza, miséria e desemprego por certos políticos e pseudoteóricos
sociais, sob a análise dos mesmos o cheque sem fundos se
"amacia" e seu emitente somado à lista dos
"coitadinhos". Criado para comodidade das relações
comerciais, o cheque, que já deu status como recurso sério em
transações mais significativas, teve seu uso democratizado ao extremo
de cair em mãos levianas, que fizeram dele um meio de lesar terceiros.
Nos bons tempos, a posse de um talonário transmitia à outra parte a
segurança do negócio. Quem o emitia gozava de respeito. Pude constatar
pessoalmente, no tempo em que o cheque levava tempo a ser compensado.
Certa vez, em Belo Horizonte, estava a avaliar mercadoria exposta numa
loja, quando fui abordado pelo vendedor. Observei-lhe que a mercadoria
me interessava, mas voltaria em outro dia, uma vez que não portava
dinheiro suficiente naquele momento. Notando que eu tinha um talonário
no bolso, disse que aceitaria cheque. Expliquei-lhe que o cheque era de
outra praça. Dito isso, virei-me em direção à saída, e já estava
à porta quando o vendedor me reteve e me apresentou ao gerente ou
proprietário do estabelecimento. Este me perguntou qual era o banco e a
cidade. Dei-lhe as informações e ele, virando-se para o vendedor: -
pode lhe vender.
Quão díspar a
reação de um comerciante atual e a daquele de há quarenta anos! Por
causa dos desonestos que abusam da confiança, o consumidor é ultrajado
ao ter o pagamento em cheque recusado, mas este é o preço moral, que
os justos pagam pelos pecadores. Embora se sinta ofendido, humilhado
como suspeito de ser potencial emissor de cheque sem fundos, o
consumidor correto deve reconhecer que, se não conhecido pelo
comerciante, o quadro atual não lhe favorece a compra mediante cheque.
O risco é grande para quem o aceita, pois a honestidade de quem o emite
não está à mostra como numa etiqueta. Infelizmente, mais um recurso,
criado para facilitar a vida do cidadão consumidor, tornou-se
complicador nas relações comerciais, depois de massificado seu uso.
Somem-se à má fé na emissão os casos de furtos de talonários e,
agora, a "clonagem" de cheques com o uso de modernos recursos
tecnológicos. O comerciante prudente tem tudo para legitimar a recusa
de cheque como forma de pagamento, e, ao consumidor correto cabe evitar
o uso de tal recurso, se não quiser sofrer constrangimentos.
Há mais de três
anos deixei de usar cheques. Assim evito o risco de me envergonhar com a
recusa de um, e, apagar da lembrança o orgulho com que passei o
primeiro.