Patacoada tupiniquim
Com a entrada de dois mil
e nove, entrou também em vigor o recente acordo ortográfico que
unifica a forma de escrever na Língua Portuguesa em todo o mundo
lusófono. A partir de agora, no prazo de três ou quatro anos,
Portugal, Brasil, Angola, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Cabo
Verde, Moçambique, e Guiné Bissau estarão se adaptando para ter uma
só ortografia, eliminando de vez a dicotomia Português de Portugal e
Português do Brasil, causada por palavras acentuadas diferentemente,
cá e lá, letras inúteis na pronúncia de lá e ausentes na escrita de
cá, além do uso do hífen e também do trema, que muito brasileiro nem
chegou a conhecer, embora continuasse em vigor na ortografia
tupiniquim. Ainda ficarão diferenças, mas poucas.
Antes, as manifestações em
torno da reforma não foram muitas, mas agora que entra em vigor,
agita-se tremendo tendepá. E sem muita razão! O tal trema, por
exemplo, ninguém o usava no manuscrito e, na máquina de escrever,
somente os perfeccionistas. Teve seu canto de cisne com o surgimento
do microcomputador que, programado para o seu uso, cobrava e ainda
cobra com uma minhoquinha vermelha debaixo da palavra em questão;
isso quando não faz a correção automática. Ninguém "tava nem aí"
para os dois pontinhos no "u" de lingüiça, lingüeta, cinqüenta,
ungüento e outros vocábulos que têm a pronúncia do "u" espremidinha
com a vogal seguinte, ao invés de fundida com ela como nas palavras
enguiço, guerra, guitarra, esquilo, esquecer, etc. Quanto à
supressão de acentos, veio para facilitar a vida de tantos, entre
preguiçosos e relapsos, que deixavam para o revisor os cuidados com
a acentuação. Que não lhes baixe o espírito de porco, a fazê-los
usar, agora, sinais gráficos onde estes foram abolidos. Os mesmos
que criticavam o excesso de acentos, agora reclamam da supressão. O
mais complicado é quanto ao hífen, mas isso não é novidade. Poucas
pessoas conhecem, de cor, as regras do seu uso e, para não cair na
esparrela, o melhor sempre foi consultar a tabelinha em bom manual
de redação, ou o dicionário.
E por falar em dicionário,
este é o recurso que não deveria ser menosprezado, pois é o que
assegura correção na grafia das palavras. Entretanto, preconceito
existe até contra o uso de dicionário, apelidado de "pai dos
burros", como se fosse instrumento destinado aos ignorantes, quando,
na verdade, ignorantes são os que assim pensam e não o usam. Ninguém
sabe tudo da língua e nem está obrigado a saber. Para o poviléu,
tanto faz quanto tanto fez.
Falantes brasileiros,
ocupados com tanta crítica sem quê e nem pra quê, se esquecem que
haverá tempo bastante para que todos se acostumem e que a reforma
pesa mais no outro lado do Atlântico. Os portugueses têm muito mais
razão para reclamar, pois, além da mexida na acentuação gráfica e no
uso do hífen, estarão a eliminar as letras "solteiras" que, no
Brasil, já não se usam há muito tempo. São eles os pais da língua,
mas isso não impediu que a reforma fosse nitidamente favorável ao
Brasil, considerando-se que somos quase duzentos milhões contra
cerca de vinte milhões dos demais povos lusófonos. Valeu o princípio
democrático da maioria.
Por isso, em lugar da
patacoada tupiniquim, deveria haver manifestos de orgulho e ações em
defesa da língua, pois a supremacia numérica confere ao Brasil
grande responsabilidade quanto à preservação da Língua Portuguesa,
infelizmente tão maltratada, sobretudo pelo emprego de
estrangeirismos. Em lugar das reclamações por tão pouco, melhor
seria assumir o compromisso de defendê-la!
Pena que não tenham
corrigido a estultice configurada na criação do vocábulo "estória"
para separar a ficção do relato dos fatos em história. Esse
estrupício só existe no Brasil, que tenta imitar o idioma inglês,
quando separa os conceitos em "story" e "history", respectivamente.
Se ainda tivessem apenas suprimido o "h", menos mal, mas agravaram a
imbecilidade com a substituição do "i" por "e". Fizeram justamente o
inverso da palavra "igreja" que até 1930 se escrevia "egreja". Em
Portugal os dois conceitos estão dentro do verbete "história", e
"estória" lá é outra história!