Patrulhamento indesejável
Muito estranha a reação de
alguns contra o emprego da expressão "semana negra" em manchete do
jornal há duas semanas, quando se referiu à ocorrência de fatos
violentos na região. A palavra negro(a), das mais comuns em qualquer
idioma, é adjetivo empregado em inúmeras situações em português, não
havendo portanto razões para melindres de cunho racial, mesmo porque
a palavra existe, independente de qualquer conotação ligada à
coloração da pele. A palavra negro(a) é empregada com relação à
coloração da pele apenas por convenção, da mesma forma que
branco(a), também é independente de qualquer conotação em relação à
cor da pele.
Louvem-se todas as
iniciativas e movimentos destinados a eliminar barreiras entre
pessoas, associações, grupos étnicos, nações, e promover a
integração de toda a espécie humana, mas há que ter cuidado, porque
o patrulhamento pode ultrapassar os limites do próprio direito de
reclamar, atingindo a liberdade de outros. No caso em apreço, é a
liberdade de expressão nas páginas do jornal O LIBERAL que foi
atingida, justamente um órgão que sempre combateu preconceitos
contra grupos étnicos e abomina o racismo sob quaisquer formas e
pretextos. Mais que teorizar e discutir o que seja racismo e
preconceito, o estágio alcançado pela humanidade cobra a prática de
ações integradoras, destinadas a mostrar e demonstrar a igualdade
dentro da espécie.
É hora de aprender que, na
verdade, não há brancos, negros, mulatos, pardos, amarelos. Há, sim,
pessoas, gente que pode ter a pele, dita branca, negra ou qualquer
variante entre elas. E na cor da pele humana, a mais escura ou a
mais alva, não se expressa o verdadeiro conceito das palavras
"negra" e "branca", que a própria física explica. A cor branca é
resultante da soma de todas as cores, enquanto a negra é
simplesmente ausência de cor e, conseqüentemente, destituída de luz.
Portanto, branco(a) e negro(a) não expressam a verdade quanto à cor
da pele, sendo apenas uma questão de convenção. O Brasão de Armas de
Ouro Preto ostenta a divisa, em latim, Proetiosum tamen nigrum,
cuja tradução tem sido mascarada algumas vezes, por medo de parecer
racista. Em português ela diz: "Precioso embora negro", referindo-se
às pepitas de ouro recobertas por capa escura de outro mineral. Ao
contrário de racismo como alguns pensam, ela contém fundo
filosófico, significando algo ou alguém dotado de grande valor
interior, porém camuflado pela humildade, ou aparente falta de luz
do conhecimento. Está claro que a qualidade assim expressa, no
brasão, refere-se a Ouro Preto e ao seu povo.
E já que se fala em
filosofia, em certos círculos há referências à "noite negra", alusão
a períodos considerados negativos, tanto no nível individual quanto
no coletivo, sem que seus adeptos, de todas as etnias, considerem a
expressão ofensiva, preconceituosa ou racista. E foi com este último
sentido que, na manchete do O LIBERAL, se empregou a palavra negra,
como qualidade daquela semana, carregada de fatos negativos ou
destituídos da luz do bem. Que tenha ocasionado mal-estar, o que
estava longe dos propósitos da manchete e respectivo texto,
lamenta-se, observando-se entretanto que a não percepção do
verdadeiro sentido das palavras é mais lamentável, pois diante disso
discussões equivocadas tendem a repetir-se.
E o jornal não vai deixar
de usar os recursos que a língua lhe faculta na expressão de seu
pensamento, mesmo sob o risco de patrulhamento, pois curvar-se a
este seria aceitar censura prévia, o que está totalmente fora de
cogitação.