Faz-se se muita poeira na
discussão, mais uma vez, em torno da situação do imóvel que,
outrora, abrigou as Escolas Dom Bosco/Cachoeira do Campo, em lugar
do faça-se luz, que se esperava, para que destino melhor lhe seja
reservado, apontando-se aqui a educação como prioridade. Com justa
razão, questiona-se o desvio de finalidade que, por mais de
centúria, foi a educação de jovens, mas mediante a ação da peneira
em que se coloca a sucessão de fatos, desde a entrega daquelas
instalações à congregação salesiana, verifica-se que se culpa há,
esta não pode ser imputada unicamente aos que detêm a propriedade do
imóvel.
Sob regime de comodato,
para que ali se instalasse estabelecimento de ensino, que
compreendia os cursos primário e secundário, além do ensino teórico
e prático de agricultura, artes e ofícios, os fins foram cumpridos.
As escolas se abriram em 1895 e chegou a formar turmas de
especialistas em agricultura até o ano de 1932. De 1933 em diante
passou a existir somente o curso ginasial, mais tarde embutido no
atual primeiro grau, formado pelas quatro anos do antigo primário e
os quatro do ex-ginásio.
No início, famílias, que
para as Escolas Dom Bosco mandavam seus filhos, questionavam,
preconceituosamente, o fato de os alunos terem aulas práticas no
campo, nas oficinas de ofícios. Recomendavam que os seus ficassem
afastados de tais atividades. Queriam para seus filhos apenas o
ensino acadêmico. E como essas famílias pagavam pelo ensino, as
atividades destinadas mais aos pobres ficaram prejudicadas. Este foi
o primeiro desvio, provocado pela própria sociedade, preconceituosa
e hipócrita, que sempre votou desprezo pelo trabalho mais simples,
especialmente o do campo. E a prioridade da educação salesiana nas
Escolas Dom Bosco, de acordo com os registros, era a agricultura.
Reduzidas a apenas o curso
ginasial, as Escolas Dom Bosco resistiram enquanto o regime de
internato vigorou, entrando em franca decadência no momento em
passou a depender do alunato regional em regime de externato. Quem
podia pagar, matriculava os filhos em Ouro Preto, em Itabirito e até
em Belo Horizonte; quem não podia, estudava no Dom Bosco mediante
bolsa ou, para criar status, matriculava o filho e fingia que
pagava. Assim, sem condições financeiras para se sustentar e sem o
outrora elenco de professores formados pela própria instituição
salesiana, o soberbo Colégio Dom Bosco chegou ao fim melancólico,
que todos vimos.
Se quisessem, os
salesianos poderiam ter dado solução à questão, sem prejuízo à
educação, mas a posição estratégica das instalações e a grande
demanda por casas de eventos de curta duração, especialmente por
parte do empresariado, acabaram por soprar mais forte em seus
ouvidos. A opção pela nova atividade motivou zum-zum acusatório de
desvio de finalidade, sem que se atentasse para o próprio governo do
Estado que, ao transferir, definitivamente, o imóvel para a
congregação salesiana, aliviou-a também da obrigação de utilizá-lo
exclusivamente para fins educacionais. Pressionado ou não, governo
do Estado é o maior culpado pelo destino dado às instalações do
antigo estabelecimento de ensino. Fala-se em desapropriação e,
talvez, a esta altura, seja a solução correta.
Entretanto, a discussão do
assunto, em âmbito local, pode ser perda de tempo, pois a
desapropriação, por sua magnitude e destinação do objeto a se
desapropriar, cabe mais ao governo da União. A Universidade Federal
de Ouro Preto-UFOP, em expansão, criou cursos e necessita de salas
para as aulas. E aqui cabe uma pergunta: por que a UFOP não se
programou quanto ao espaço de que necessitaria? Parece-me ter
vestido as calças antes da cueca!
Em meio ao lero-lero e
acusações salienta-se declaração de político ouropretano, segundo o
qual "os salesianos não fizeram quase nada". Bisonho na
abordagem do assunto, profere estúpidas e arrogantes palavras, que
nada são contra a obra que durou mais de cem anos! Fazem-me lembrar
de outras às quais tive de retrucar, proferidas por senhor de nariz
empinado, ao meu lado, dentro de ônibus quando passava frente ao
acesso para o Colégio Dom Bosco: "olhe só que gordo parasita,
vagabundo! Essa gente não faz nada senão comer e dormir". O
parasita e vagabundo ao qual meu eventual companheiro de viagem se
referia era o padre José Tavares Baêta Neves (falecido),
popularmente conhecido como Padre Baêta, que caminhava à margem da
rodovia, enquanto rezava o breviário. Aquele "vagabundo" lecionava
Francês para as quatro séries do Colégio Dom Bosco e ainda História
Geral para a quarta série. As horas entre o jantar e o repouso
noturno ele as passava a corrigir tarefas, determinadas,
regularmente, a cada aula ministrada, além das provas mensais e
semestrais. Como se não bastasse, respondia pelas paróquias de Casa
Branca, de São Bartolomeu que, então, englobavam várias outras
capelas. Só o trabalho do padre Baêta na educação de tantos jovens
dá para esmagar todo o pretenso julgamento emitido pelo infeliz
político contra a obra salesiana em Cachoeira do Campo.