Quando me
lembrei da viagem a Pirapora, pensei em contar apenas o caso do tatu
por suas peculiaridades, mais parecido com "causos" de caçador e,
especialmente, de pescador. Advirto, entretanto, aos mais inclinados
ao deboche e desmoralização de relatos tidos como mentirosos, que o
fato aconteceu; não foi invenção. Quem escreve, cria, mas nem
sempre.
Decidi pela
continuação da narrativa porque a rotina não foi o forte naquele
passeio, misturado com o dever de empregado da maior indústria
instalada em toda região de Ouro Preto e adjacências àquela época.
Além de tudo, Pirapora tem sua história ligada a Cachoeira do Campo,
embora poucos cachoeirenses tenham disso conhecimento e muito menos
os "trezentões" do distrito sede municipal. Pirapora, sossegada à
margem direita do Rio São Francisco - o "Velho Chico" – junto a
pequena queda, que faz da cidade o porto inicial do trecho
navegável, foi emancipada e elevada à condição de sede municipal em
agosto de 1911, sob a liderança de José Joaquim Fernandes Ramos,
nascido em Cachoeira do Campo, mais precisamente no "Matoso", então
propriedade do seu pai, Joaquim Fernandes Ramos, mais conhecido como
"Coronel Ramos", da Guarda Nacional. O Coronel Ramos tem seu nome
ligado à praça, conhecida dos cachoeirenses, por muito tempo, como
"Garagem", por ali ter sido guardado o primeiro veículo a motor
chegado a Cachoeira. Além da fazenda do Matoso, Coronel Ramos
residiu na "Garagem", em casarão então existente onde se localiza a
agência dos Correios e parte do prédio de apartamentos, bem como
também foi morada sua o sobrado, já demolido, quase em frente
daquele que resta na Praça Felipe dos Santos (Praça da Matriz). José
Joaquim Fernandes Ramos, filho do Coronel Ramos e formado em Letras
em Ouro Preto, primeiro presidente da Câmara Municipal de Pirapora
e, consequentemente, primeiro agente Executivo municipal (cargo
correspondente, hoje, ao de prefeito) por dois mandatos, deixou seu
nome ligado à cidade de Pirapora, não só por sua ação política como
também por outros feitos e empreendimentos.
Feitas essas
considerações históricas a envolver Cachoeira do Campo e Pirapora,
volto às apreciações sobre minha rápida estada naquela cidade. Logo
à chegada, aos primeiros sinais do sol, pude ver grande número de
banhistas a caminhar em direção à praia, movimento que se repetia em
sentido contrário entre nove e meia e dez horas, e voltava a
acontecer, a partir das quinze horas, para lotar a praia até à
noite. Os poucos hotéis estavam lotados de veranistas, que faziam o
movimento na cidade de pouco comércio, além dos hotéis, pensões e
alguns bares. Havia o Banco do Brasil (onde fiz o recolhimento do
imposto), único estabelecimento bancário existente para atender a
Companhia de Navegação do São Francisco e a ferrovia. O calor era
abrasador e, por isso, ninguém conseguia dormir antes das três da
manhã. O resultado era uma vida noturna com pistas de dança
rústicas, fechadas apenas acima da cabeça, localizadas à margem do
"Velho Chico". O alimento mais consumido era o peixe e o líquido era
a cerveja bem gelada. A indústria cervejeira havia lançado a meia
garrafa, logo apelidada "minissaia" e, em Pirapora, entendi o
porquê. Em locais muito quentes, a cerveja se esquentava antes de o
consumidor chegar ao meio da garrafa. No hotel, o chuveiro desligado
da corrente elétrica nem dava a perceber que era fria a água, e,
enxames de pernilongos faziam o tormento dos hóspedes!
Passei três dias
a curtir o ócio com direito a escorregão nas pedras, logo abaixo da
queda d’água, e rolagem por cerca de cem metros, rio abaixo. Foi um
dos grandes sustos que já sofri!
O retorno,
decidi fazer por ferrovia, mas à hora de comprar o bilhete
esbarrei-me na dificuldade de trocar cédula de dez mil cruzeiros
(com a efígie de Santos Dumont), a de valor mais alto na época,
lançada no ano anterior. Em vão, tentei trocá-la no comércio. Muitos
nem a conheciam. Felizmente, com a dona da pensão onde fiz as
refeições consegui, no fechamento da conta, desconto que, somado ao
dinheiro trocado que ainda tinha no bolso, fez a quantia
correspondente ao valor da passagem. Ao embarcar, às dezesseis
horas, armava-se grande tempestade no rumo da viagem. Mas antes que
ela desabasse com toda a força demonstrada por raios, trovões, muito
vento e água suficiente para cortar a visão além dos cem metros, o
inesperado se fez novamente. Desta vez não era e nem poderia ser
tatu!
Fumacinha
começou a se desprender da calha do vidro de uma das janelas à minha
frente. Uma mulher viu e gritou: fogo! Estabeleceu-se o pânico,
correria, gritos como se o trem já estivesse em chamas. Antes que
chegasse o chefe de trem, alguém sugeriu e logo acionou o freio de
emergência, fazendo aquela coisa toda parar. Não se sabe de onde
surgiu um arame na mão do homem, que se apresentou para encerrar o
furdunço. Com presteza, ele introduziu o arame na abertura e
"pescou" toco de cigarro ainda fumegante. Não duvido tenha sido ele
o descuidado que deixou cair a bituca, da qual não passou o incêndio
anunciado. Em Corinto, mais uma vez passageiros se apavoraram. A
cidade estava às escuras, a enxurrada a tudo invadia e, na estação,
entroncamento com ramal em direção à Bahia, nosso trem tinha que
fazer manobra para permitir a chegada de comboio proveniente daquele
estado. Sem meios de receber informações e desconhecedores daquele
procedimento, passageiros se apavoraram. Uns criam ter ficado para
trás, abandonados pelo trem, outros chegaram a embarcar em trem
errado. A calma só se restabeleceu mediante atuação dos ferroviários
que, de lampiões e lanternas em punho, gritavam de pontos
estratégicos para a turba, fornecendo-lhe orientação. O restante da
viagem, até Belo Horizonte aonde o trem chegou às seis horas,
transcorreu sem incidentes.