PONTO DE VISTA DO BATISTA

Peripécias sobre rodas I

Nesta faixa de transição do calendário, época das festas natalinas, ano novo e formaturas, desfruta-se também grande parte das férias, especialmente quando possível a conciliação com as férias escolares. Consequentemente, é o período, por excelência, das viagens de recreio. E, viagens sugerem novidades, outros lugares, caras novas e, quiçá, novas amizades. Sugerem também aprendizado e mais conhecimento, dependendo, é claro do gosto de cada um e de como a viagem é vista, sentida e aproveitada, porque para muitos viagem é apenas o deslocamento de um ponto a outro, sem qualquer atrativo, quando não fato torturante.

Incluo-me entre os apreciadores e passaria boa parte da vida a circular pelo mundo, se condições para isso tivesse. Se não posso, de fato, usufruir de viagens com todas as sensações inerentes a cada uma, pelo menos o conhecimento posso absorver em viagens virtuais, que a internet proporciona. Mas o foco principal deste texto não é a virtualidade pela internet, mas pequena viagem real empreendida por mim, combinando trabalho e um pouco de lazer.

Foi no tórrido janeiro de 68, quando o asfalto era luxo em poucas rodovias em Minas, e a empresa, em que trabalhava, designava um funcionário para ir a Pirapora, norte do estado, pagar imposto sobre minérios. Ela podia ter encarregado fixo para isso, mas, a cada mês, enviava um diferente, preferencialmente em gozo de férias, como oportunidade de lazer. O numerário era suficiente para passar três dias com folga naquele, então, pequeno balneário à margem direita do Rio São Francisco, onde começa seu trecho navegável. Embora a empresa proporcionasse essa oportunidade ao designado, houve funcionário que foi e voltou com trinta e seis horas, bem como outro que procedeu ao contrário, gastando além do que recebera. É claro que a empresa não o ressarciu.

O ônibus saia de Belo Horizonte às vinte e duas horas e chegava a Pirapora por volta das seis. Felizmente, àquela época ainda não havia o tal celular, a quebrar o silêncio com futilidades e narrativas imbecis como diário de bordo do jeca. Afora manias de alguns passageiros, como fuçar no painel acima de cada para de poltrona, acendendo e apagando os pequenos focos de luz, a comilança dos que pensam que, enquanto sobre rodas em movimento, é tempo de comer, a viagem transcorreu sem qualquer fato merecedor de registro, até que todos se aquietaram, uns a dormir e outros a sentir a viagem, como este escriba. Embora a estrada fosse de terra, suas condições eram razoáveis e o veículo avançava com boa velocidade. Depois de algumas horas, repentinamente, o ônibus começou a sacolejar com violência como se trafegasse sobre sucessão de crateras. Viajava à janela – fechada devido à poeira – e imaginava que tipo de estrada o veículo agora percorria, quanto notei algo a roçar no vidro; era um galho de árvore. Percebi então que o ônibus rodava fora da estrada, por entre vegetação de cerrado, o que explicava o súbito desconforto. Curiosamente, poucos passageiros levantaram a cabeça para ver o que acontecia, mas sem qualquer questionamento. Meu companheiro ao lado nem se mexeu. Por alguns instantes, o ônibus continuou naquela situação, até que parou. Motorista e cobrador desceram apressados e sumiram na escuridão cortada apenas pelos faróis do carro. Nenhum passageiro desceu, ao contrário do que normalmente ocorre em paradas extras e acidentais, o que aumentava minha curiosidade. Mais alguns instantes, os dois retornaram, abriram o bagageiro, depositaram algo e entraram no ônibus a conversar:

- Você viu que grande? É o maior que já peguei – ao que o cobrador retrucou:

- É, mas eu já vi maior.

- Maior que este?

- Sim, quando eu trabalhava com o "Tonico das Dores".

- É difícil de acreditar que há maior que este!

- Pois, há.

A essa altura, o passageiro ao lado também estava atento ao diálogo. Perguntei-lhe, então, o que acontecia.

- Então o senhor não é da região e não costuma viajar por esses lados. Eles acabaram de matar um tatu.

- Tatu?

- Isso mesmo. Acontece muito nessas viagens.

Foi aí que entendi porque, além de mim, ninguém se assustara com a correria do ônibus fora da estrada. São lembranças do Brasil ainda meio ingênuo, a vida levada ao ritmo pessoal sem muita relação com os grandes centros urbanos, nem tão grandes àquela época. O tatu, esse cavador de túneis, ícone dos construtores dos metrôs, era a festa de caçadores noturnos em noites de lua, munidos de enxadão, chuço, e bons cachorros para entocar o bicho. Sobrava até para caçadas sobre rodas! E não havia o IBAMA!

nbatista@uai.com.br

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