PONTO DE VISTA DO BATISTA

Perigo vestido de inocente

Chegada a segunda metade julho, início da segunda metade do ano, também férias pela metade para quem ainda estuda, eis que ao azul do céu se juntam pontos multicoloridos e saltitantes, embalados pelo vento que sopra nesta época do ano. São os papagaios, termo genérico para todos os tipos de artefato de natureza lúdica (arraia, pandorga, pipa, etc.) que a imaginação concebeu e fabrica, associando varetas de taquara e porção de papel de seda em forma geométrica.

Diz-se que foi inventado, algo em torno de duzentos anos antes de Cristo, na China. Quem o criou e empinou pela primeira vez, com certeza o fez por necessidade de dar mais liberdade à imaginação, elevar-se virtualmente às alturas, como agora se diz, livrando-se, mentalmente, das amarras materiais, nem que instantes apenas. Vê-se logo que o brinquedo é dos mais antigos, se não o mais, ultrapassando dois milênios, sem sofrer alterações de grande monta. Brinquedos como o jogo do "finco", ou "finca", bolinha de gude, pião, bente-altas e outros caíram em desuso ou desapareceram na poeira dos jogos eletrônicos, mas o papagaio resiste e continua a brincar com as nuvens e a olhar por cima quem se crê manipulador, mesmo sujeito a surpresas vindas lá do alto.

Entretanto, o progresso, que vem para facilitar, sem querer atrapalha. E é assim que redes elétricas se tornaram perigo para soltador de papagaio, quase sempre criança ou adolescente, despreocupado com as armadilhas que o progresso encerra junto ao brinquedo inocente. Fugir dos centros urbanos é o jeito, ganhar espaço, ao alto, livre de tranças metálicas, se faz necessário, porque brincar é ter mãos dadas com a vida. Mas, entre os próprios aficionados do brinquedo, o torpe se imiscui e a inocência do jogo se desfaz com o famigerado cerol, mistura de cola e vidro moído, que a deslealdade parceira da inveja usa para abater concorrentes. Não mais brincar por brincar, ou soltar a imaginação em busca experiências nela própria, realizando então higiene mental. Como na deslealdade comercial em que se arruínam concorrentes, há que cortar linhas e derrubar papagaios participantes. Como na guerra, o adversário tem de ser aniquilado e posto fora de combate, transformando-se então o antigo e inocente brinquedo em mais um campo de disputa estúpida, à revelia do que pensam demais participantes da brincadeira.

Agrava-se a disputa desleal com o uso do cerol porque as vítimas já não são simplesmente os papagaios derrubados e respectivos "empinadores", que absorvem prejuízos. Como na guerra, corre sangue; sangue de inocentes não participantes da brincadeira, trabalhadores na maioria das vezes, quando no exercício de suas atividades profissionais. Mortes já ocorreram e grande número de motociclistas são gravemente feridos com a linha de cerol enrolada no pescoço, quando ela cai ao nível do trânsito de pessoas nas vias urbanas e rurais. O pedestre só não sai com ferimentos mais graves, porque percebe a armadilha a tempo de evitar danos maiores, mas motociclistas e ciclistas, devido à velocidade dos veículos, só percebem quando é tarde demais. Em Minas, a Lei nº 14.349, de 15 de julho de 2002, proíbe o uso do cerol, mas a exemplo de outras, não proíbe o fabrico e o comércio, o que torna mais difícil a fiscalização. Sabe-se que, na maioria das vezes o usuário adquire o produto de terceiros, que têm fonte extra de renda no fabrico e comércio do cerol. Da forma em que a lei foi aprovada e está em vigor, punição pode haver sob constatação do uso do cerol, mas isso, na verdade, só acontece na ocorrência registrada de acidentes do gênero, quando vítimas já foram feitas.

A própria população deveria se mobilizar e cobrar das autoridades lei mais severa, não só para evitar mais vítimas inocentes, mas para resguardar o direito de crianças, jovens e mesmo adultos, brincar com papagaios ou pipas. É bom que isso se faça já, antes que algum político, valendo-se da lei do menor esforço, proponha simplesmente a proibição do brinquedo. Hare baba!

nbatista@uai.com.br

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