Pieguices fora de hora
Por vias da violência em
terra estranha, onde estava a trabalhar, o brasileiro João José
Vasconcelos Júnior saiu do anonimato e entrou na mídia
internacional. Sem qualquer ligação com os motivos que levaram o
Iraque ao estado de guerra, dividido por questões
político-religiosas e invadido por forças estrangeiras, o engenheiro
foi seqüestrado no dia 19 de janeiro último, provavelmente por
militantes de uma das facções em litígio, quadro que perdura desde
muito antes que a guerra de fato afetasse todos os iraquianos.
É o mundo da espécie, cuja
natureza se confunde entre o angelical e o demoníaco. Ao mesmo tempo
em que cura, solidariza-se e constrói, mata, repudia e destrói. E,
cada vez, mais difícil se torna lidar com forças que a título de
reivindicar justiça, promovem o contrário, ao eleger inocentes como
alvos de sua ira. O caso do brasileiro é mais um dos muitos em que
inocentes são, de repente, lançados ao olho do furacão em qualquer
parte onde a beligerância ou o crime escapa ao crivo do bom senso ou
do controle legal. Sem saber quem são seus algozes, mas imaginando
quão insensíveis possam ser em relação à vida do semelhante,
calcula-se o quanto o caso está a exigir dos que se ocupam de tentar
identificar autores, localizar e libertar a vítima.
Ao mesmo tempo, no círculo
familiar e dos amigos, a expectativa quanto ao desfecho do
lamentável episódio gera uma angústia, cujo efeito imediato é a
dúvida quanto à validade do que se faz, no sentido prático, para
solucionar o caso. O sentimento de pesar e de revolta se expande,
atinge a sociedade, e aí explode o dispensável nos momentos de
impasse. Apelos emocionais em favor da vítima, além de não
contribuírem em nada para colocá-la em liberdade, correm o risco de
agravar a situação, dependendo do tipo mental dos indivíduos
responsáveis pelo crime. No caso em apreço, embora desconhecidos os
autores, presume-se, em função da motivação, que sejam inflexíveis
em suas ações e frios quanto à reação emocional de quem se lhes
opõe. Não será por ouvir clamores, pouco importa de quem seja, que
desistirão do cativeiro imposto à vítima, se ainda viva.
Chega-se a duvidar que
tenha partido de gente inteligente a idéia de usar o futebol como
meio interativo, considerando-se presumida simpatia do povo
iraquiano pelos futebolistas brasileiros. Ora, quem retém o
profissional brasileiro são alguns indivíduos, cujas nacionalidades
nem se conhece, e não o povo iraquiano, tão distante da
responsabilidade pelo que acontece com o João José Vasconcelos
Júnior, como está o povo brasileiro em relação aos assassinatos de
turistas estrangeiros, por bandidos. Ressalte-se ainda que quem se
mete em luta armada não está ligado nessas pieguices, que consideram
próprias de panacas. Que se aquietem os ávidos por holofotes sobre
si e deixem o assunto para a diplomacia e serviços de inteligência,
os verdadeiros entendidos nessas questões. Anônimos agentes dos
serviços secretos, sem projeção senão dentro do círculo de seu
trabalho, podem muito mais que toda notoriedade de um astro do
futebol, de um artista ou de um presidente da República. Não nos
iludamos, porque partidários da violência só respeitam respostas no
mesmo diapasão, considerando fraqueza qualquer concessão, embora
seja isso o pretendido. Como o cão que ladra, avançam sobre suas
vítimas ao menor sinal de fraqueza, mas recuam diante da reação
firme. Se falam grosso, gritemos grosso. Se disparam um tiro,
disparemos dois. Não será pelos pretensos dotes e belos olhos
tupiniquins que os seqüestradores deixarão o nosso João em paz.