Pitoresco, tempero do trágico!
Visto como tempero ou contrapeso ao trágico tão
presente no noticiário quotidiano, o pitoresco se mostra aqui e ali,
embora nem sempre alce vôo e dê ibope. Acontece e se perde na poeira
do tempo, só porque não teve testemunha perspicaz, dotada de sentido
oportunista (no bom sentido), fator determinante na análise do fato
como notícia. Não somente o riso deixa de acontecer, porque também
se perdem oportunidades de visão diferente sobre a realidade de uns
e outros; visão pela qual perspectivas mais ricas e interessantes
podem ser descortinadas – quem sabe?
Dos Estados Unidos corre mundo
o caso do juiz que, em sentença por crime de abordagem de
prostitutas na rua (para quem não sabe, em alguns estados
americanos, isso é crime) condenou cidadão a se fantasiar de
galinha, postar-se em determinada esquina e fazer campanha contra
famoso bordel localizado na cidade. O galináceo improvisado, todo
amarelo, bem caracterizado, digno de destaque em desfile
carnavalesco na Marquês de Sapucaí/Rio, pode ser visto em vídeo
baixado da internet. Lá está o cidadão a purgar seus pecados sob a
figura da penosa gigante, fazendo, ao mesmo tempo, campanha contra a
"Granja" (nome do bordel), alvo da ojeriza do juiz, notório por
sentenças esdrúxulas. Em outra sentença, ele já havia condenado uma
mulher a passar a noite sozinha, no mato, sem água e sem comida. A
sentença teve como objetivo fazer a ré experimentar do sofrimento
imposto a gatinhos abandonados por ela. É gritante a diferença.
No
Brasil, a prostituição infantil corre solta e nada acontece contra
quem induz, permite, explora e muito menos contra quem aborda as
meninas na rua. Cães são abandonados na ruas, especialmente quando
doentes, e gatos dizimados mediante envenenamento, na sustentação do
cativeiro de pássaros, outro crime cruel, não importa se autorizado
ou não pelo IBAMA. Na mesma proporção da rejeição à crueldade contra
os animais, a qualidade da justiça norte-americana vai ao requinte
do deboche, no primeiro caso, e do remédio tirado do próprio veneno,
no segundo. Exagera-se, às vezes, na sentença, e erros também
acontecem, como aqui, mas é rara a impunidade.
E na Itália,
precisamente na Sicília, merece aplausos a anciã de 81 anos, cuja
atitude em defesa de sua autoridade doméstica chamou a atenção de
todo o país. Ela cortou a mesada do filho de 61 anos, retirou-lhe as
chaves da casa e ainda deu queixa contra ele na polícia. Reclamou
contra o filho, que não trabalha, vive às suas custas e tem o hábito
de sair todas as noites sem lhe dizer aonde vai e só volta tarde. O
mammoni (nome dado aos marmanjos italianos que continuam a
morar com os pais) pilantra, em sua defesa na delegacia, alegou que
a mesada era pequena e que sua mãe cozinha muito mal. Muito
cara-de-pau o tal siciliano que, além de gozar da dolce vita
à custa da mamma, ainda reclama e critica.
O fato de o filho
ter 61anos - mesmo que trabalhasse - não invalida as prerrogativas
da dona da casa como autoridade doméstica. Ela está em sua casa e
quem, de favor, com ela mora e dela depende para viver, mesmo sendo
filho e também ancião, tem de se submeter aos seus hábitos. Sua
atitude deveria ser exemplo aos pais, que abdicam de sua autoridade
e se submetem aos caprichos dos filhos, contribuindo para que estes
se tornem, no mínimo, parasitas sociais.
A velhinha italiana é que
está com razão.