PONTO DE VISTA DO BATISTA

Planeta dos macacos

Creio que bem poucos não conhecem a história do "Planeta dos Macacos" contada em filme do mesmo nome e que chegou a ser tema de programa humorístico da televisão. Astronautas em viagem pelo espaço sideral chegam a planeta, cuja espécie dominante é a dos macacos que subjugam ali a espécie humana. Os astronautas, sendo humanos, portanto da espécie "inferior", acabam também escravizados pelos símios até que se descobre que o planeta não é outro senão a própria Terra, onde os papéis haviam se invertido entre os humanos e os símios depois de hecatombe nuclear. A viagem que, para os astronautas, não passara de alguns anos, na verdade durara o tempo suficiente para que tudo se transformasse e a história da civilização humana se perdesse em lendas contadas entre os macacos.

Mais ou menos esta é situação da população honesta deste país com a surrealista inversão de valores morais, na qual o lado avesso de tudo se firma como certo, ficando ela na condição de esquisita, fora dos padrões, alvo da zoada dos que se locupletam nas negociatas públicas, caloteiros e ladrões sob todos os tipos de máscara. O honesto perde o emprego ou é exibido como peça rara, digna de museu do insólito. Até no esquema de defesa contra a corrupção, infração, o delito e o crime, quem paga é o cidadão ordeiro cumpridor de seus deveres. Ainda há poucos dias testemunhei fato e bom exemplo do que digo.

Numa dessas geringonças, instaladas em entradas de banco, segundo dizem, para coibir assaltos, uma senhora estava retida devido ao mecanismo detector de metal. A coitada, muito aflita porque, naturalmente, alguma urgência de natureza financeira forçava seu comparecimento àquele estabelecimento bancário, e porque aquela estúpida parafernália assim não "pensava". Ao contrário, "entendeu" que a mulher portava revólver, quiçá uma metralhadora ou canhão, objetos incompatíveis com a natureza do ato de chegar ao caixa para sacar ou depositar dinheiro. Ela retirou as moedinhas do bolso, juntou chaves, pequena sombrinha, e colocou tudo na caixinha transparente. Tentou novamente e a porta se mostrou irredutível: a mulher continuava "armada"! Ainda gesticulou para o guarda do outro lado, numa tentativa de superar o impasse. Mas, o guarda deu de ombros. Ele era subordinado à porta! Seja lá o que tenha levado aquela mulher ao banco, naquele dia e naquele banco ela não conseguiu cumprir. Bruscamente, ela virou as costas, saiu e gritou dois sonoros palavrões, que bem expressavam sua indignação e de todos que se sentem constrangidos quando aquela geringonça manifesta "suas suspeitas". Se a mulher fosse bandida, a porta não teria sido obstáculo, e o vigilante nem tempo de piscar!

Mas, todo o sistema insiste no modo mais cômodo de resolver a questão da corrupção e da violência: punindo o cidadão honesto e pacato! De trás de muros e grades, que pouco resolvem contra a falta de segurança pública, ele assiste à ousadia dos que fingem estar presos sob a custódia do Estado que finge vigiá-los quando, na verdade, têm mais liberdade para comandar o crime cá fora. Mortes são decididas, assaltos ordenados, tráfico e contrabando administrados, "pedágio" a trabalhadores cobrado, extorsão por telefone aplicada, tudo sob a segurança dos "escritórios" em que se transformam presídios.

De boa vontade o lado são da sociedade se desarma e é bom que isso aconteça, porém de forma espontânea, nunca sob imposição do Estado ao qual cabe o dever de, primeiro, desarmar o lado bandido. Mas, o que se vê e se sente é o crime a se expandir e ganhar solidez, cooptando forças de baixa moral nas estruturas oficiais. Com o Estatuto do Desarmamento o Estado imobiliza a sociedade e deixa que o banditismo lhe bata à vontade. Aos macacos só falta a conquista do poder!

nbatista@uai.com.br

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