Da platina à palatina
Não resta a menor
dúvida de que o computador veio para simplificar tarefas e melhorar
nossa relação com o trabalho, libertar-nos do enfoque sobre coisas
banais, como a ordenação de uma lista, até arrojadas, como cálculos
complicados e desgastantes com mínimas probabilidades de erro em
comparação com o cérebro humano. Para isso, entretanto, é
necessário que a máquina esteja programada para lidar com cada
função, o que representa esforço dos melhores cérebros para de
dotá-las dos melhores recursos cujo objetivo é reduzir, ao mínimo,
tempo, esforços e custos, na execução de qualquer trabalho. Como
conseqüência, criam-se postos de trabalho na área da computação e
da informática, mas, em muito maior número desaparecem empregos na
outra extremidade, as áreas de sua aplicação. Conquanto mais rápida
e mais sentida seja a transformação verificada agora, devido à
globalização, o fenômeno não é novo. A revolução industrial
produzida pela invenção da máquina a vapor, do motor a explosão e
pela aplicação da eletricidade, provocou extinção de muitas
atividades e empregos, além de favorecer péssimas condições de
trabalho nas primeiras grandes fábricas que surgiram. Como exemplo de
desaparecimento, economicamente muito sentido em nossa região, temos o
caso do tropeiro, o desbravador de sertões, homem de ligação entre
pequenas e grandes cidades, levando e trazendo mercadorias em lombo de
burro, até que surgiu a ferrovia e, mais tarde, a rodovia.
Em Ouro Preto, até
os anos sessenta, nas ruas centrais era comum o trânsito, e, na Praça
Tiradentes, a concentração de tropas de burro que levavam à cidade
produtos da região. Eram remanescentes das grandes tropas que, outrora,
chegavam até aos estados vizinhos. Os modernos caminhoneiros são os
mais próximos sucessores daqueles tropeiros que, ao desaparecerem,
levaram também atividades artesanais voltadas à manufatura de
apetrechos em couro, crina e metal, necessários à montaria e ao animal
de carga.
O computador faz
maravilhas, mas não raciocina e disso parecem não estar conscientes
duas jovens, amostras talvez de extenso contingente de pretensos
espertos, oportunistas diante daquilo que lhes parece atalho para o
sucesso. As duas trocavam impressões sobre os estudos e diziam que o
computador dispensava maiores preocupações com o aprendizado da
ortografia e da gramática, pois ele corrige tudo. Estava claro que
ainda não tinham tido oportunidade de escrever em tela de computador.
Ri comigo mesmo ao imaginá-las na redação de um texto e a armadilha
em que se veriam na hora da correção, pois o computador costuma
criticar o que está correto e sugerir opções, às vezes, absurdas. Na
ortografia, os problemas não são tantos, mas quanto à gramática,
quem não conhece suas regras, embatuca de vez. Basta o uso da crase
para embolar os neurônios de quem pensa que o computador
"sabe" tudo. Mas, aos atentos, ele costuma mesmo ensinar.
E foi o que aconteceu
comigo quando redigia um texto em que aparecia a palavra
"platina" para designar ombreira de uniforme. Ao revisar
percebi que havia digitado "palatina" ao invés de
"platina" e, curiosamente, o computador não havia criticado,
sinal de que a palavra existia. Até então sabia da existência de
palatino (derivado de palato e que não tem feminino). Por isso recorri
ao dicionário e lá encontrei: "peliça
usada pelas senhoras sobre os ombros e ao pescoço". O
dicionário (Houaiss) ainda informa que sua origem está no apelido da "princesa
Carlota Isabel, da Baviera, filha de Carlos Luís, eleitor palatino do
Reno, introdutora do uso deste tipo de traje". A
designação comumente usada para ombreiras estava duplamente
equivocada: quanto à ortografia e quanto ao significado original. Pelo
erro na digitação cheguei à verdade. Mas, não é todo dia que isso
acontece.