Em sua ingênua sabedoria,
o povo diz que a "corda arrebenta sempre no lado mais fraco", para
dizer a quem são debitadas responsabilidades por perdas e fracassos
nas realizações humanas. Quem tem menos poder arca com as
conseqüências. É verdade incontestável e a gente mais simples tem
consciência disso; razão pela qual, havendo dúvidas quanto a
resultados futuros, recomenda-se cautela aos envolvidos em questões,
nas quais a outra parte detém mais poder, de qualquer espécie. Esse
princípio é da ordem natural das coisas, bastando-se observar a
natureza para se chegar à conclusão sobre sua atuação na dinâmica da
vida. Quem tem menos poder tem que se prevenir ou se defender,
previamente, se não quiser ser engolido pelo outro. É a chamada lei
do mais forte!
O que não dá para aceitar
é a manipulação desse princípio, atribuindo-se às vítimas o negativo
produzido pela incompetência na gerência e solução de problemas
sócio-econômicos. Arrefecida um pouco, é verdade, em decorrência da
resistência produzida aqui e ali, a teoria de que a explosão da
violência teria como causa o desemprego, a fome e a miséria é bem
exemplo do que fazem grupos políticos, seja como despiste para sua
incompetência na detecção da verdadeira causa e combate aos efeitos,
ou tentativa de cobrir a violência e crimes comuns com a máscara da
conflagração social, que melhor serve aos seus propósitos. Nem
percebem a estúpida incoerência no que dizem, porque quem tem fome e
está na miséria não tem forças, nem armas para a prática de
assaltos, sequestros e enfrentamentos com as forças de segurança; na
necessidade premente, quem tem fome age de forma solitária e furta
alimento mais à mostra. Ainda debitar a prática de parte desses
crimes ao trabalhador é o maior dos insultos à classe que dá seu
sangue pelo desenvolvimento deste país e é a primeira vítima dos
desajustes econômicos, provocados, na maioria das vezes, pela
insensatez de políticos. Ele sofre no íntimo e seu orgulho de
trabalhador é atingido pela humilhação do desemprego, sua família
passa necessidades e vai junto para o sacrifício, renunciando ao
conforto, mas não se bandeia para o crime, como sugerem filósofos e
sociólogos de botequim! Não é pouco grande parcela da população
estar à margem da sociedade, carente de tudo porque políticos não a
levam em consideração senão nas campanhas eleitorais, ou ficar
desempregada graças à incompetência dos governos na gerência da
macroeconomia. Ainda que os agentes da violência sejam bem
alimentados, mais bem armados que as forças de segurança, integrados
em organizações nos moldes empresariais e até portadores de diplomas
universitários, é àquela massa de deserdados que se debita a origem
da violência. Mas, não porque seja ela o lado fraco e, sim, porque
convém a uns poucos bem nutridos (em todos os sentidos) que assim se
acredite!
E a história se repete na
constatação do crescimento dos índices de inflação! O próprio
presidente da República diz que a inflação é provocada pelos pobres,
que passaram a "comer mais" e acrescenta que, por isso, "a inflação
é boa", como se a minimizar-lhes a "culpa" . Pela primeira vez se
ouve dizer que inflação é algo bom! Só não se sabe ainda que figura
mítica entra no lugar do terrível dragão! E esperemos que o
presidente não volte atrás, porque então o pobre deverá voltar a
fazer cruz na boca! É impressionante como mudam conceitos por meio
da estranha alquimia política. Antes, a inflação era provocada pela
ganância dos meios de produção e matreirices do mercado, derivações
do capitalismo selvagem que causam a fome, de que tanto se falou no
início do primeiro governo petista.
Agora, a inflação é
causada pelos pobres e determina que se produza mais e também ganhem
mais os que vivem de alimentar e movimentar o mercado de consumo.
Lavoisier descobriu que, na natureza, nada se cria, porém tudo se
transforma. No governo petista nada se cria, tudo se conserva; o que
se transforma são os conceitos.