PONTO DE VISTA DO BATISTA

Poder público ouropretano despreza bandas de música

Com esta edição encerra-se a série de artigos, resumo histórico das bandas de música de Cachoeira do Campo, bem como restabelecimento da verdade sobre a rivalidade entre elas existente. Os ouropretanos, divididos entre "jacubas" e "mocotós", se engalfinhavam e os cachoeirenses pagavam o pato. Como diz o dito popular "macaco se senta no próprio rabo e pisa o do semelhante!"

Só a longevidade das entidades musicais cachoeirenses já seria motivo de estudos, se interesse oficial houvesse pela preservação da cultura, mas enquanto isso não acontece cumpre a nós lançar luz sobre a obscuridade, maldosamente engendrada por interesses políticos na sede municipal e ingenuamente assimilada pela população do distrito. O que era competição, temperada com raros radicalismos sem maiores conseqüências para a tranqüilidade coletiva ou convivência civilizada entre pessoas de posições políticas antagônicas, foi torcida à imagem do que ocorria entre "jacubas" e "mocotós". Houvesse o mesmo clima em Cachoeira do Campo, não teriam sobrevivido as que se constituem em sua mais importante identidade cultural, assim como não sobreviveu a maior parte das entidades culturais ouropretanas, incluindo-se bandas de música, anteriores à República. E por falar em República, o ALMANACK Administrativo, Mercantil, Industrial, Científico e Literário do Município de Ouro Preto (Manoel Ozzori), para o ano de 1890, cuja impressão começou antes e terminou depois de 15 de novembro de 1889, não registra nenhuma banda de música em Ouro Preto; registra três na Freguesia de Cachoeira do Campo (Euterpe, União Social e Sociedade Infantil); e duas na Freguesia de Ouro Branco (sem lhes citar os nomes). Nas demais freguesias, também nenhuma. Daí deduz-se que a S.M Carlos Gomes, posteriormente transferida para Belo Horizonte foi fundada pouco antes da mudança da capital. Talvez isso explique o fato de ela, atualmente, lançar seu registro de nascimento ao lixo, preferindo forjar outro condizente com o pioneirismo na nova capital. Coisas da vaidade humana!

Mesmo assim é bom observar que a atitude da S.M. Carlos Gomes pode ser contrapartida do inconsciente coletivo ao descaso para com a cultura local, que parece ser marca registrada, há longo tempo, dos setores responsáveis em Ouro Preto. O desprezo começa com a própria Lei Orgânica do Município, que não dá mínima atenção a elas, ao contrário da constituição do Estado, na qual se reconhece sua importância e se lhes recomenda preservação. A administração municipal, não somente a atual, gasta uma fortuna com patrocínio de festas barulhentas e coisas em nada representativas da cultura local, mas não paga sequer pelos serviços contratados junto às bandas de música do município. De administrações anteriores não se recebeu por grande parte dos serviços prestados sob convocação da própria prefeitura, que anda na contramão em relação aos municípios vizinhos, onde as bandas de música contam com razoável subvenção e outras formas de apoio, independentemente dos serviços contratados.

Por ocasião dos preparativos e realização dos eventos comemorativos dos 140 anos de fundação da S. M. União Social ficou flagrante o descaso já denunciado, pois, embora o projeto com solicitação de apoio tenha sido entregue, no gabinete do Executivo Municipal, ainda em maio/2004, nada se obteve em troca; nem mesmo um NÃO! Para não ter que cumprir o dever de apoiar algo da cultura local, como cabe ao agente político, o projeto foi ignorado! Isso mesmo, simplesmente ignorado! Programados os eventos, convites foram enviados às autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário. Nenhuma autoridade ouropretana compareceu, acusou recebimento do convite ou apresentou cumprimentos. É bom acrescentar que aos "dignos representantes do povo", os convites foram entregues diretamente no gabinete do presidente. As demais autoridades tentarão por a culpa nos Correios! Mas, só em Ouro Preto? Na esfera estadual, todos receberam, pois a entidade aniversariante recebeu correspondência até do gabinete do governador. Em Ouro Preto, "tamo na mão de calango!"

nbatista@uai.com.br

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