Pontapé na História
O Brasão de Armas e a
Bandeira de Ouro Preto ostentavam a divisa, em latim, Proetiosum
tamen nigrum, cuja tradução foi algumas vezes mascarada, por
medo de parecer racista; em parte por pura paranóia e outra pela
perda da capacidade de interpretação, ou seja, de saber ler além do
que dizem palavras escritas. Nem sempre o significado da palavra, ou
da expressão, é o que nos parece. Em português o dístico revela:
"Precioso embora negro" ou "precioso ainda que negro" referindo-se,
em princípio, às pepitas de ouro recobertas por capa escura de outro
mineral. Ao contrário de racismo como alguns pensam, a expressão
contém fundo filosófico, significando algo ou alguém dotado de
grande valor interior, porém camuflado pela humildade, ou aparente
falta de luz do conhecimento. Está claro que a qualidade assim
expressa, nos símbolos ouropretanos, referia-se a Ouro Preto e ao
seu povo.
A Física ensina que a cor
ou luz branca resulta da soma de todas as cores, enquanto que a
chamada "cor" negra é, na verdade ausência de cor, ou de luz. E por
essa razão emprega-se a expressão negro(a) para definir algo ou
condição negativa, ou oposta à luz, neste caso a representar o
conhecimento. Quando se diz, por exemplo, "período negro da
história" alude-se a trevas ou escuridão no sentido de falta de
conhecimento ou de sua aplicação por trás de condições ou
acontecimentos negativos na vida de grupos sociais ou de todo um
povo. Nenhuma relação com a cor da pele ou com qualquer etnia tem o
vocábulo negro(a) usado nessas condições, pois na cor da pele
humana, a mais escura ou a mais alva, não se expressa o verdadeiro
conceito das palavras "negra" e "branca", que a própria física
explica. E já que se fala em filosofia, em certos círculos há
referências à "noite negra", alusão a períodos considerados
negativos, tanto no nível individual quanto no coletivo, sem que
seus adeptos, de todas as etnias, considerem a expressão ofensiva,
preconceituosa ou racista.
A troca da inscrição nos
referidos símbolos confirma, mais uma vez, a tendência neste país de
se nivelar por baixo o que seria a educação ampla e abrangente. É a
derrubada do coqueiro para que se colham cocos no solo, ao invés das
condições de escalada para que todos tentem colhê-los em condições
naturais. Ao longo dos anos, tem faltado à Educação o cuidado de
dotar o cidadão do mínimo necessário, além das ferramentas
alfa-numéricas, para que ele, por si, alargue a visão sobre o que
lhe descortina a vida, entenda o real significado do que vê, não
deturpe o sentido de ensinamentos e respeite o passado nas obras
deixadas pelos que o antecederam. O aluno recebe cada vez menos em
educação. É como se estivesse em crescente fila de famintos, e a
quantidade de pão em distribuição permanecesse a mesma.
Mas, o poder da imposição
muda de lado com o tempo, valendo-se da mesma força para cobrar o
"troco", que compense o passado desfavorável. À criminosa manutenção
da ignorância, instrumento de sustentação do poder, ora sucede o
servilismo com odor demagógico diante dos brados da própria
ignorância, que se impõe a exigir reparos onde não há o que reparar.
É a ascensão do obscurantismo, por enquanto concentrado apenas na
vingança contra o monopólio do saber, antes que se cumpra o primeiro
ciclo e se instalem, de fato, o revisionismo cultural, a caça às
bruxas, quiçá, a fogueira!
Por enquanto é tão somente
o começo, mas, o campo se torna favorável diante do poder, que agora
cede para não perder. E o começo tinha de acontecer em Ouro Preto,
que assim dá um pontapé na História!